O poder da fraqueza inevitável

“Se devo me orgulhar, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza”¹

Quero admitir que não é propício, eu tirar alguma glória do que ocorre comigo, das vezes que consegui fugir ou me libertaram, como da última que fui retirado em um cesto, ou como tenho sofrido por amar vocês. Na verdade, por um amor grande que ultrapassou meus limites e transborda em vocês.

Muitos se gloriam dos seus feitos maravilhosos, porém se tenho que falar de glória sobre algo que seja das minhas fraquezas e dificuldades em cuidar de vocês. Eu sinto as dores de vocês, e isso machuca por dentro. Porém isso, não deve me impedir de trazer boas novas de paz e contar sobre as revelações da verdade.

Houve um homem, que não sei bem ao certo, foi levado até o terceiro céu, ele ouviu palavras que não são possíveis de explicar ao homem e como seres falhos, não podemos pronunciá-las por sua grandeza. Quando ouço histórias como a desse homem, me glorio nele. Porém, em mim? Não, apenas sou fraco.

Não quero cometer a incoerência de me gloriar de algo que não sou, trabalho com a verdade e desta forma me apresento. Justamente para que não houvesse, da minha parte, orgulho dos meus feitos, recebi uma marca de dor e de lembrança de quem eu sou: fraco. E pedi três vezes para que fosse afastada de mim, essa dor que tanto incomoda e não me faz esquecer que sou apenas barro moldado.

Então, o Cristo me respondeu, dizendo que somente Ele e seu favor que de graça é oferecido iriam bastar em mim. Pois são nas minhas fraquezas e erros que não consigo evitar, lembro do perfeito que me sustenta diariamente. Este é o poder inevitável da fraqueza em nós: lembrar o que somos, para conhecermos a quem pertencemos.

[1] 2 Coríntios 11.30

Releitura dos Capítulos 11 e 12 da Segunda carta à Coríntios, escrita por Paulo de Tarso (apóstolo e discípulo do Cristo)

Gilberto Freyre e a mulher negra: Um diálogo

Nota: Em minha casa tenho um exemplar do clássico Casa-Grande & Senzala, livro grande e denso, fruto do trabalho do Freyre. Após algumas observações feitas no podcast sobre literaturas africanas, lembrei que o sobrenome da minha família é citado no livro e novamente peguei-o para uma olhada mais direcionada. 


A conversa de Freyre se apresenta, de forma análoga, quando ele senta e observa as relações sociais. Ele traça a via de mão dupla entre indivíduos. A mulher branca é colocada diante da mulher negra, ele observa as diferenças entre elas, como elas eram enxergadas, o que a sociedade dizia sobre elas, os meios que as envolviam, suas atitudes e suas construções.

Casa Grande & Senzala é uma aclamada obra que teve e tem sua importância. Porém, os aspectos de descrição romanceados, as explicações que palpitam a boca, tornam a obra um relato com um filtro, como muitas obras fazem até hoje. Tentando dar beleza ao sofrimento e realidade difícil, suavizar as misérias da vida humana.

Nesse sentido, o trabalho de conceituação empreendido por Freyre em CG&S seria o dado inequívoco que o manteria entre o “real” e o “abstrato”, entre a experiência e o discurso, ou, para se falar em termos da empobrecedora dicotomia, entre ciência e literatura.  (NICOLAZZI, Fernando; 2011)

É importante perceber que ele separa as características que a mulher negra é envolvida atribuindo à escravidão. Em meus olhos de curiosa, ouso dizer que a escravidão, para ele, seria como uma roupa que veste essa mulher e imputa o que essa mulher é. (Mas… convenha comigo que é mais ‘confortável’ atribuir aspectos frutos de contínua violência à sua causa do que ao seu causador.)

Neste texto, discorrerei sobre três aspectos (dentre muitos) relacionados a mulher negra que são perceptíveis dentro desta obra.

DEMONIZAÇÃO

“Em oposição à lenda moura-encantada, mas sem alcançar nunca o mesmo prestígio, desenvolveu-se a da moura-torta. Nesta vazou-se porventura o o ciúme ou a inveja sexual da mulher loura contra a de cor. Ou repercutiu, talvez, o ódio religioso: o dos cristãos louros descidos do Norte contra os infiéis de pele escura. Ódio que resultaria mais tarde em toda a Europa na idealização do tipo louro, identificado com personagens angélicas e divinas em detrimento do moreno, identificado com os anjos maus, com os decaídos, os malvados, os traidores”  (Madison Grant, 1916 apud. FREYRE, Gilbeto; 2004)

A negra escrava foi enxergada como o o recanto da maldade e do profano, provinha dela (ou do negro escravo) a destruição dos “bons costumes”. A ausência do que para os portugueses deveria ser o aceitável, o ‘diferente’ se tornou pecado.

EROTIZAÇÃO/OBJETIFICAÇÃO

“Diz-se geralmente que a negra corrompeu a vida sexual da sociedade brasileira, iniciando precocemente no amor físico os filhos-família. Mas essa corrupção não foi pela negra que se realizou, mas pela escrava” (FREYRE, Gilberto, p. 398; 2004)

“Não há escravidão sem depravação sexual” (FREYRE, 2004), não é  a negra que espalha a luxúria e lascívia na sociedade, mas o estado de escrava que condiciona o indivíduo ao comportamento. A senzala em suas baixas e poucas instalações, o lugar que servia para o homem e para a mulher, a mistura dos sexos e a mulher que sofria castigos e penitências que só cabiam ao seu sexo e ao seu corpo, que levam ao estupro pelos homens brancos e negros.

“Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: “Branca para casar, mulata para f…, negra para trabalhar” (FREYRE, Gilberto, p.72; 2004). Ditados como esses colocam o lugar da branca e da preta. Onde até os dias de hoje, o corpo da negra é mais sexualizado do que a branca, onde a preta é sensual, as suas formas, seu cabelo, seu corpo mais voluptuoso são colocados como desejo sexual e não são apresentados como ‘padrão de beleza’. O corpo da negra se tornou um objeto de uso, no qual não tinha alma e era somente usado para o trabalho e sexo.

As divisões de cor entre os negros, que são presentes também hoje. Não existe diferença entre ser ‘negra’ e ser ‘mulata’, essa divisão é meramente social para ser alguém ‘parcialmente’ aceitável, alguém que serve pra algo nem que seja para o sexo, para isso existia a mulata. Mulata que é tão preta quanto a negra do trabalho.

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‘MÃE VULGAR’

“À figura boa da ama negra que, nos tempos patriarcais, criava o menino lhe dando de mamar, que lhe embalava a rede ou o berço, que lhe ensinava as primeiras palavras de português errado, o primeiro ‘padre-nosso’, a primeira ‘ave-maria’ a’, o primeiro ‘vôte!’ ou ‘oxente’, que lhe dava na boca o primeiro pirão com carne e molho de ferrugem” (FREYRE, Gilberto, p. 419, 2004)

Essa atuação da negra escrava é transmitida na linguagem, na comida, nos modos e em sua permanência até os dias de hoje, mais presentes nas regiões do Nordeste. Mesmo presentes, não se conhece a origem, não é atribuído à negra e ao negro essa construção, justamente por essa subtração de importância e crédito.

” As histórias portuguesas sofreram no Brasil consideráveis modificações na boca das negras velhas ou amas-de-leite. Foram as negras que se tornaram entre nós as grandes contadoras de histórias” (FREYRE, Gilberto, p. 413, 2004)

.Quando a negra velha que cuidava dos meninos brancos, a sua influência era menosprezada e diminuída, era considerado como “jeito errado”. Porém não era fácil tirar o dia-a-dia da ‘mãe preta” que vivia na cozinha, que cuidava do menino, que dava leite ao filho de outrem.

 “…era com os portugueses ilustres e polidos que devíamos aprender a falar, e não “com tia Rosa” nem “mãe Benta”, nem com nenhuma preta da cozinha ou da senzala” (FREYRE, Gilberto, p. 417, 2004)

Necessário fitar que não havia distinções entre as negras e sobre suas funções, por mais que fosse a negra que executasse de maneira vulgar a maternidade daquele menino, era a mesma que se deitava com ele pela primeira vez. E mais uma vez a insignificância dela, que era usada de qualquer forma e para o que fosse conveniente ao seu senhor.

***

A construção do passado é feito através de diversos olhares. Os posicionamentos de Freyre, por mais café com açúcar que aos nossos olhos pareçam, e como hoje são questionados com seriedade de acordo com o que a obra e as tantas outras dele, causaram. Como os termos e esteriótipos foram marcados e registrados por ele. Como seu olhar intimista por vezes, quebra a seriedade do discurso científico.

Olhar para Casa Grande & Senzala, é perceber que mesmo em meio as deficiências e faltas, uma obra originalmente publicada no ano de 1933, disseminou uma osmose de signos que o imaginário social carrega como verdade (por vezes, sem perceber).

 

 

FREYRE, Gilberto. CASA GRANDE & SENZALA. Global EDITORA, 49ª  Edição, 2004, Recife, PE.

NICOLAZZI, Fernando. AS VIRTUDES DO HEREGE: ENSAIO, MODERNISMO, E ESCRITA DA HISTÓRIA EM CASA GRANDE & SENZALA. Rev. Remates de Males, pp 255 – 282, Jan/Dez, 2011, Campinas – SP

Revisão textual: Vanessa Santos (História, UFBA) e Stephanie Gueiros (Ciências Sociais, UFPE)

Posfácio #010 – Chimamanda Ngozi Adichie

Sim, vou trazer os quatro livros pra “roda”. Vão ser breves comentários, mas o importante é falar sobre os livros e sobre a Chimamanda. Ela tem sido bastante conhecida por seus discursos no youtube a popularização deles em e-books. Nigeriana que vive nos EUA, seus romances se passam na Nigéria e dá um apanhado sobre a cultura local desse país.

Organizei os livros de acordo com a ordem em que foram lidos por mim.
Lembrando que todos os livros são publicados pela Companhia das letras.

SEJAMOS TODOS FEMINISTAS (2013)

Esse pequenino livro é fruto da transcrição da palestra popular da Chimamanda, que recebe o mesmo título (link no youtube). O livro se encontra disponível gratuito tanto na Amazon, quanto na Saraiva (só baixar os leitores digitais). Voltando ao livro, a autora vai conversando sobre situações que causam revoltas por mulheres, pela forma que são enxergadas e o que acontece.

Algo que chama atenção são as tantas vezes que ela fala que isso causa raiva, e que não devem ser menosprezadas pois são situações sérias. Falar sobre feminismo não é só falar sobre mulheres, mas falar sobre os homens também. Ela vai contando várias situações de amigos e que ela mesma passou que nos faz refletir sobre o mundo que temos vivido.

“Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser “benquistos”. Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos os meninos pelas mesmas razões”

Algo que posso deixar como “dica” é o discurso equilibrado que é levado ao longo de poucas páginas e comunica muito bem o feminismo. E por isso, é ótimo para indicar para pessoas conhecerem a causa.

PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS (2017)

Esse tem um discurso bem pessoal, são “cartas” em resposta a uma amiga da Chimamanda, onde ela vai pontuando algumas coisas importantes para essa mulher que acabou de ser mãe.

“Pai é verbo tanto quanto mãe” Interessante, não? Por vezes, algumas pessoas conseguem transmitir uma multidão de significados em pequenas sentenças e essa é uma delas. Os pontos apresentados por Adichie não são atos extremamente revolucionários, mas são coisas do dia a dia, atos que devem ser feitos naturalmente e são possíveis de serem feitos.

“Tente não usar demais as palavras como ‘misoginia’ e ‘patriarcado’ com Chizalum. Nós, feministas, às vezes usamos muitos jargões, e o jargão às vezes pode ser abstrato demais. Não se limite a rotular alguma coisa de misógina – explique a ela por que aquilo é misógino e como poderia deixar de ser.”

E isso foi uma das observações que mais me saltaram os olhos. Vivemos dias de falas expressas que nem sempre comunicam, nos comentários raivosos do facebook várias etiquetas são colocadas e isso nem sempre comunica algo: hétero-branco-classe média-misógino-preconceituoso-homofóbico-privilegiado. É necessário pensar sobre isso.

AMERICANAH (2013)

Ifemelu é a personagem principal que cresce em Lagos nos anos 90, e por causa dos conflitos internos do país, muda-se para os EUA para cursar a faculdade. Aos poucos, o romance vai passeando por conflitos políticos da Nigéria, posteriormente dos EUA (até a eleição de Obama), conflitos familiares e individuais.

Quando estável nos EUA, Ifemelu começa um blog onde fala sobre as perspectivas de uma nigeriana nos EUA, e isso vai abrindo diversas conversas sobre n situações, quer seja sobre a mulher, sobre ser negra, sobre ser estrangeira… Aliás, tenho que admitir que isso foi uma boa sacada da Adichie pra permitir esse leque de pensamentos e informações que giram em torno da personagem.

“Mas raça não é biologia; raça é sociologia. Raça não é genótipo, é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo”

E isso traz uma grande riqueza de informações ao livro, por algumas vezes, cenas são construídas de forma a imergir o leitor dentro do ambiente, e quando por pressa perguntamos se haveria tal necessidade de tamanha descrição. Porém, aquilo que o livro quer mostrar é a realidade daquele cenário, detalhando o ar seco das ruas, os cantores mais populares ou as pessoas presentes em uma sala de estar.

HIBISCO ROXO (2003)

O meu queridinho e o mais recente de minhas leituras.

Kambili é a personagem da vez, menina de 15 anos que cresce em uma família com um pai extremamente religioso, e dentro desse contexto vai levando ao questionamento sobre a catequização da Nigéria, como a cultura deles se transforma em algo totalmente pagão ao olhar dos religiosos. Como exemplo disso, o fato das missas serem realizadas em inglês.

“O que a Igreja está dizendo é que só um nome inglês torna válida a nossa crisma. O nome ‘Chiamaka’ diz que Deus é belo. ‘Chima” diz que Deus sabe mais, ‘Chiebuka’ diz que Deus é o melhor. Por acaso eles não glorificam Deus da mesma forma que ‘Paul’, ‘Peter’ e ‘Simon’.”

E o foco desse livro seria justamente as relações de religiosos extremistas e outros que conseguem ter uma visão mais equilibrada e com melhor leitura de sua cultura. Como também e não menos importante, a violência doméstica. Cenas muito tristes e pesadas são tratadas na trama, cenas de silêncio diante das ações e conformidade com total atrocidade.

O livro tem um final que chama bastante atenção, como as situações e simbolismos foram bem amarrados para finalizar o enredo e como cada elemento foi bem colocado.

(Falarei sobre outros aspectos desse livro no medium)

[SOBRE OS DOIS ÚLTIMOS LIVROS]
Tanto em Hibisco Roxo como em Americanah, alguns elementos da cultura nigeriana são retratado profundamente. Os artistas como Feia, Osadebe, Onyeka Onwenu e Fela Kuti, os quais nunca tinha ouvido falar antes de ler sobre eles. Em rápida googleada sobre, pouca informação é mostrada, alguns ainda são disponíveis em plataformas como Spotify e YouTube, com músicas que duram de 12 – 20 minutos em média. E não há tradução disponível sobre as letras cantadas.

Por momentos nas narrativas, várias palavras e frases em igbo são trazidas no texto e as traduções ausentes, isso não impede de compreender o texto o sentido dele em sua integridade. Porém, seria bom saber o que realmente aquelas interjeições e expressões significam.

Isso me levou a refletir como as culturas africanas são deixadas à margem em nossa sociedade e meios de comunicação, como sabemos pouco e temos pouco acesso a esse universo. Cabe abrir espaço para essa reflexão.