Quando o oposto nos diz quem somos

Lembro do dia que encontrei uma mulher negra, na minha graduação e ela começou a contar sobre como a realidade hostil do curso, levou-a a se perceber como negra. Passei e passo por algo semelhante.

Será que temos que encarar o que não somos para entender quem somos? Ter que entender o que não é ser mulher, para então ser uma? Saber o que é ser branco, índio, latino para saber o que é ser negro?

Irei compartilhar duas experiências pessoais, que não devem ser levadas em consideração como regra para sociedade. Mas que não deixa de ser um reflexo do que ocorre dentro dela, afinal somos atores sociais.

Primeiro Oposto: Não-mulher

A minha educação não fundamentou muito essa questão do “ser mulher”, como de costume de alguns, foram reproduzidas frases que não explicam muita coisa mas somente dogmatizam o comportamento feminino: “Você tem que sentar assim, porque é mocinha”; ” Se você sair com um monte de menino, quem fica mal falada é você”. Essas frases não justificam ser mulher, na verdade só impõe o que você tem que fazer por ser mulher. 

É importante olhar a sociedade e questionar o que é imposto, ou nos é servido de bandeja. Se podemos criticar e questionar o que nos é servido, isso pode nos causar problemas ou soluções.

Quando encontro alguns colegas-homens, percebo a ideia frágil que eles tem sobre mulher. Sobre quando eu tiro piadas semelhantes as deles, e eles se surpreendem por  eu fazer isso. Ou quando apresento minha opinião fundamentada em alguns livros e leituras paralelas.

O oposto nesse caso, seria o que eles esperam de uma mulher e o momento que naturalmente as mulheres quebram esse esperado, aquela rápida sensação de desconforto. Sim, o desconforto é ele que nos fala sobre o comodismo do lugar que estamos e nos leva a indagar.

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Obra atribuída a Dino Muradian

Segundo oposto: Branco

Um dia estava eu (negra) e mais duas mulheres (brancas) auxiliando em uma cozinha. Neste momento, chegou um homem (branco), o qual conhecia as três e começou a brincar e jogar conversa fora. De repente ele solta, “Pronto, a única que vai cozinhar vai ser ela” e apontou pra mim, acho que no momento eu fiz uma cara meio feia e ele ficou meio sem saber em que terreno estava pisando. Para quem assiste a situação talvez não tenha percebido esse nuance de cor que enfatizei nos parênteses. Poderia eu acusar ele de racismo?

Depois de um tempo vamos percebendo algumas coisas que se não prestarmos atenção a sociedade fala e não escutamos. Já escutei várias vezes que minha beleza é exótica, eu acho engraçado o uso dessa palavra “exótica”, para algo que é bem comum no Brasil: negra – cabelo cacheado – altura mediana. Da mesma forma, como quando pego ônibus para a zona sul da cidade, e não chega a ter 5 negros dentro do ônibus.

***

O oposto é o espelho invertido da nossa realidade. A máxima que Os opostos se atraem, nem sempre é válida para a sociedade, somos levados a crer que realmente se atraem, porém no íntimo… Eles se auto-conhecem.

Poeminha de domingo

I

Dominguei você
Seu risinho safo

Olhos de chinês, me disseram:
– Veja, o domingo está posto na mesa!
Ah, sim! A mesa de domingo…
Que vontade de você, domingo

Mesa cheia, mesa farta
Gente na mesa, pratos conversando
Talhares ta-ta-lha-lha-tlá-tlá
Copos, distantes da mesa
Perto da mesa, copos

II

Domingo de você
Minha saudade de futuro

Olhos redondos, me disseram:
– Silêncio, o domingo foi embora
Ah, domingo… Não se vá
Que saudade de você, domingo

Mesa vazia, mesa falta
Deixe a mesa, os pratos calados
Talheres, ó, não há
Copos, distantes da mesa
Perto da mesa, mosca

III

Domingará, você
Amanhece em mim

Olhos serenos, me disseram:
– Faça o seu domingo, hoje, mais uma vez
Ah, domingo…te chamei pra perto
Vem ser família, domingo

Vou montar mesa, mesa nova
Os pratos vão aprender a falar
Talheres tagarelas (virá)
Copos vem à mesa
Cada vez mais perto

(estamos)

 

Carta aos amigos de longa data

Olá,

Faz tempo que não conversamos ou entregamos a nós mesmos as risadas que antes eram bem expansivas e presentes. Faz tempo que não vivenciamos coisas juntas. Faz tempo que nos ocupamos, mudamos, construímos e desconstruímos, brigamos e nos abraçamos. Faz tempo.

Estou bastante relutante em escrever sobre nós, sobre o que tínhamos ou que temos, o que restou ou o que não há mais. Eu provavelmente não fui uma boa amiga em muitas situações, às vezes é muito difícil lidar com as diferenças e dizer que irei lutar pelo direito do outro falar. Por vezes só quero que me escutem também. E tantas vezes meu silêncio só assistiu as diferenças pronunciadas em minha frente.

Nem sempre a vida beneficia as pessoas e suas relações, nem sempre o tempo é favorável com as coisas. Por vezes, eu tive vontade de me mudar novamente e fugir das responsabilidades, tive medo de encarar coisas que eu precisava encarar e novamente fugi e me ausentei.

Hoje, eu não sei muito o que fazer, parece uma nuvem de poeira que se encontra bagunçando toda a minha cabeça. Parece que perdi o jeito de tratar as pessoas, de até que ponto eu estou ajudando e até que ponto estou prejudicando. Eu não sei muito bem lidar com perdas ou certas distâncias, existem pessoas que passaram com grande facilidade na minha vida, caminharam por seus caminhos e hoje nem as encontro, mas sou feliz pelo tempo que durou.

Porém, acho necessário deixar o rio correr para o mar, não estou muito forte para ir convidar, chamar, iniciar conversas. Sei que do outro lado também não há essa mesma força, e uma coisa que tenho aprendido é que nem sempre vamos conseguir levar todas as pessoas no nosso barco, e isso não é negativo. Pelo contrário, as cargas precisam ser divididas. E mais barcos vem se tornando necessários.

Talvez, nossas incompatibilidades estejam pesando muito mais no barco e não sei se consigo sustentar. Quando eu estou em uma direção e outros puxam o leme para outra direção.

E isso não quer dizer que deixo de olhar e admirar seus feitos e suas vidas, não peço que sejamos estranhos, mas que tenhamos consideração. Nem sempre todas as pessoas que nos relacionamos e encontramos serão de relacionamentos profundos e desabafos e total entrega e muita proximidade e intensidade. E nem por isso deixaram de ser importantes.

Queria evitar mal estar, evitar coisas mal resolvidas, deixar assentar essa poeira que tanto me bagunça. Porém enquanto tudo isso ocorre, a vida corre e é necessário também caminhar.

Espero que não só saiba das notícias da vida de vocês por facebook e mudanças de status, não somos desconhecidos ou somente conhecidos por redes, na verdade ainda temos amizade. Espero abraçar com uma nostalgia boa e de um tempo que foi bem aproveitado e trazemos com boa lembrança, espero compartilhar as coisas boas e as dificuldades, mesmo que seja de ano em ano, aniversário em aniversário, mas que seja feito com sinceridade.

Uma vez li que pedir perdão não é sobre realmente dizer “perdão” mas dizer o que se fez de errado. Aqui, com muito zelo, depositei minhas ausências e dificuldades.

Perdoando nossas falhas para sermos perdoados,
Caminhemos ao futuro que nos é apresentado todos os dias, amigos.