A solitude de um jantar

Estava sentada em uma longa mesa do restaurante universitário daquela velha instituição pública de ensino superior. As conversas paralelas, miúdas, extravagantes. Enquanto um já estava terminando o café com leite, o outro acabara de sentar. E no final do restaurante, meu olho observava entre as brechas que os corpos das pessoas formavam nas disposições das mesas: uma mulher negra. Na verdade, outra mulher negra.

Quando anoitece, as coisas mudam na universidade. Até as pessoas que frequentam o restaurante ou carinhosamente apelidado “ru”, mudam. À noite, tem pessoas mais velhas, tem rosto de quem trabalhou durante o dia, tem mais camisas de atividades em igrejas cristãs evangélicas, tem mais silêncio, tem até mais vagas.

Voltando para aquela senhora que eu observava no início do meu jantar, desde que sentei na mesa ela olhava para o vazio e limpava a boca com um guardanapo. Se eu observasse com mais atenção, perceberia que ela estava segurando o guardanapo como se estivesse esquecido que ele estava ali, como se ele fosse uma forma de conter as palavras que estavam querendo fugir dos seus lábios.

Então, ela levantou, reparei sua roupa, roupa de quem é simples, de quem não coloca os ombros a frente da cabeça, de quem pensa antes de falar. Os cabelos crespos, grisalhos, presos, tristes, amarrados. Cabelo crespo precisa ser solto para ser feliz, porém tanto as roupas quanto as amarras no cabelo me diziam que ela cresceu em redomas. Me diziam baixinho, quase sussurrando, bem devagar… Engatinhando como se estivesse com vergonha de aparecer. Perdi de vista, não a enxerguei mais…

Voltei ao meu prato, meu café com leite, meu silêncio. Estaria alguém em sua solitude também a me observar, como eu observava aquela senhora? Somente o silêncio da reflexão nos faz enxergar o óbvio em frente aos nossos olhos.

Quantas senhoras como ela já estiveram sentadas perto de mim, conversando sobre os cursos noturnos que a universidade oferece e como os professores são injustos? Por quantas vezes o barulho afugenta a nossa alma que busca por paz, que busca o outro, se reconhece nele e o habita…

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La Nuova Gioventú

Faz um freelancer eventual; estuda para a prova do dia seguinte; faz o almoço e deixa congelado. Hoje não vai dar para sair com o namorado, tem prova amanhã. E a gente tem que fazer uma mágica com o dinheiro, tem que usar cupom de desconto, fazer aquele malabarismo, esperar a black friday, fazer feira e comprar o necessário. Não temos muita certeza do amanhã, a crise tá pesada e a universidade pública cada dia a sua vez.

Já conhecemos as músicas da greve. Vamos, meu amigo, lute! Lute contra os cortes da educação, estamos desmotivados, cansados intelectualmente. Cansados de correr contra a maré, o dia poderia ser mais lento e a água não tinha que correr para o mar. Ficamos postando várias vezes sobre como a universidade desgasta a mente dos alunos e como os professores estão percebendo a desmotivação deles.

Só que… Entre passar por isso, mesmo que por vezes se arrastando, e tentar uma forma  alternativa… O medo coíbe. O medo nos trava e seguimos o fluxo. Por dias nos perguntamos se vale mesmo a pena. Será?

As pessoas mais velhas costumam dizer que temos mais oportunidades do que ‘no tempo deles’, e isso não deixa de ser verdade. Porém, é difícil comparar a qualidade de vida, é difícil ver se realmente estamos conseguindo questionar e mudar o rumo das coisas. Será que nossas lutas tem relevância para mudança social, ou só defendemos ideais por orgulho de nossas ideologias?

Questionadores. Pensativos. Inertes. Subversivos. Liberais. Conservadores. Somos tantos e ao mesmo tempo ninguém, não conseguimos unir ideais comuns (ou, conseguimos?). Vamos construindo nossa vida sem perceber o que estamos construindo. As disputas do mercado, precisamos ser melhores e cada vez mais bem preparados, o mundo não perdoa. E nós, será que conseguimos nos perdoar?

E talvez, seja o que mais precisamos: perdoar a nós mesmos. Perdoar nossas cobranças surreais de um mundo injusto, perdoar o não cumprimento de prazos, perdoar as crises, perdoar o fato que por vezes não vamos conseguir, perdoar as escolhas e também o fato de não fazê-las. Perdoa-me.

 

Carta aos amigos de longa data

Olá,

Faz tempo que não conversamos ou entregamos a nós mesmos as risadas que antes eram bem expansivas e presentes. Faz tempo que não vivenciamos coisas juntas. Faz tempo que nos ocupamos, mudamos, construímos e desconstruímos, brigamos e nos abraçamos. Faz tempo.

Estou bastante relutante em escrever sobre nós, sobre o que tínhamos ou que temos, o que restou ou o que não há mais. Eu provavelmente não fui uma boa amiga em muitas situações, às vezes é muito difícil lidar com as diferenças e dizer que irei lutar pelo direito do outro falar. Por vezes só quero que me escutem também. E tantas vezes meu silêncio só assistiu as diferenças pronunciadas em minha frente.

Nem sempre a vida beneficia as pessoas e suas relações, nem sempre o tempo é favorável com as coisas. Por vezes, eu tive vontade de me mudar novamente e fugir das responsabilidades, tive medo de encarar coisas que eu precisava encarar e novamente fugi e me ausentei.

Hoje, eu não sei muito o que fazer, parece uma nuvem de poeira que se encontra bagunçando toda a minha cabeça. Parece que perdi o jeito de tratar as pessoas, de até que ponto eu estou ajudando e até que ponto estou prejudicando. Eu não sei muito bem lidar com perdas ou certas distâncias, existem pessoas que passaram com grande facilidade na minha vida, caminharam por seus caminhos e hoje nem as encontro, mas sou feliz pelo tempo que durou.

Porém, acho necessário deixar o rio correr para o mar, não estou muito forte para ir convidar, chamar, iniciar conversas. Sei que do outro lado também não há essa mesma força, e uma coisa que tenho aprendido é que nem sempre vamos conseguir levar todas as pessoas no nosso barco, e isso não é negativo. Pelo contrário, as cargas precisam ser divididas. E mais barcos vem se tornando necessários.

Talvez, nossas incompatibilidades estejam pesando muito mais no barco e não sei se consigo sustentar. Quando eu estou em uma direção e outros puxam o leme para outra direção.

E isso não quer dizer que deixo de olhar e admirar seus feitos e suas vidas, não peço que sejamos estranhos, mas que tenhamos consideração. Nem sempre todas as pessoas que nos relacionamos e encontramos serão de relacionamentos profundos e desabafos e total entrega e muita proximidade e intensidade. E nem por isso deixaram de ser importantes.

Queria evitar mal estar, evitar coisas mal resolvidas, deixar assentar essa poeira que tanto me bagunça. Porém enquanto tudo isso ocorre, a vida corre e é necessário também caminhar.

Espero que não só saiba das notícias da vida de vocês por facebook e mudanças de status, não somos desconhecidos ou somente conhecidos por redes, na verdade ainda temos amizade. Espero abraçar com uma nostalgia boa e de um tempo que foi bem aproveitado e trazemos com boa lembrança, espero compartilhar as coisas boas e as dificuldades, mesmo que seja de ano em ano, aniversário em aniversário, mas que seja feito com sinceridade.

Uma vez li que pedir perdão não é sobre realmente dizer “perdão” mas dizer o que se fez de errado. Aqui, com muito zelo, depositei minhas ausências e dificuldades.

Perdoando nossas falhas para sermos perdoados,
Caminhemos ao futuro que nos é apresentado todos os dias, amigos.