Carta aos amigos de longa data

Olá,

Faz tempo que não conversamos ou entregamos a nós mesmos as risadas que antes eram bem expansivas e presentes. Faz tempo que não vivenciamos coisas juntas. Faz tempo que nos ocupamos, mudamos, construímos e desconstruímos, brigamos e nos abraçamos. Faz tempo.

Estou bastante relutante em escrever sobre nós, sobre o que tínhamos ou que temos, o que restou ou o que não há mais. Eu provavelmente não fui uma boa amiga em muitas situações, às vezes é muito difícil lidar com as diferenças e dizer que irei lutar pelo direito do outro falar. Por vezes só quero que me escutem também. E tantas vezes meu silêncio só assistiu as diferenças pronunciadas em minha frente.

Nem sempre a vida beneficia as pessoas e suas relações, nem sempre o tempo é favorável com as coisas. Por vezes, eu tive vontade de me mudar novamente e fugir das responsabilidades, tive medo de encarar coisas que eu precisava encarar e novamente fugi e me ausentei.

Hoje, eu não sei muito o que fazer, parece uma nuvem de poeira que se encontra bagunçando toda a minha cabeça. Parece que perdi o jeito de tratar as pessoas, de até que ponto eu estou ajudando e até que ponto estou prejudicando. Eu não sei muito bem lidar com perdas ou certas distâncias, existem pessoas que passaram com grande facilidade na minha vida, caminharam por seus caminhos e hoje nem as encontro, mas sou feliz pelo tempo que durou.

Porém, acho necessário deixar o rio correr para o mar, não estou muito forte para ir convidar, chamar, iniciar conversas. Sei que do outro lado também não há essa mesma força, e uma coisa que tenho aprendido é que nem sempre vamos conseguir levar todas as pessoas no nosso barco, e isso não é negativo. Pelo contrário, as cargas precisam ser divididas. E mais barcos vem se tornando necessários.

Talvez, nossas incompatibilidades estejam pesando muito mais no barco e não sei se consigo sustentar. Quando eu estou em uma direção e outros puxam o leme para outra direção.

E isso não quer dizer que deixo de olhar e admirar seus feitos e suas vidas, não peço que sejamos estranhos, mas que tenhamos consideração. Nem sempre todas as pessoas que nos relacionamos e encontramos serão de relacionamentos profundos e desabafos e total entrega e muita proximidade e intensidade. E nem por isso deixaram de ser importantes.

Queria evitar mal estar, evitar coisas mal resolvidas, deixar assentar essa poeira que tanto me bagunça. Porém enquanto tudo isso ocorre, a vida corre e é necessário também caminhar.

Espero que não só saiba das notícias da vida de vocês por facebook e mudanças de status, não somos desconhecidos ou somente conhecidos por redes, na verdade ainda temos amizade. Espero abraçar com uma nostalgia boa e de um tempo que foi bem aproveitado e trazemos com boa lembrança, espero compartilhar as coisas boas e as dificuldades, mesmo que seja de ano em ano, aniversário em aniversário, mas que seja feito com sinceridade.

Uma vez li que pedir perdão não é sobre realmente dizer “perdão” mas dizer o que se fez de errado. Aqui, com muito zelo, depositei minhas ausências e dificuldades.

Perdoando nossas falhas para sermos perdoados,
Caminhemos ao futuro que nos é apresentado todos os dias, amigos.

Em tempos

Em tempos do imediato, as pessoas são objetos e quando não nos servem mais, jogamos fora.
Em tempos de facebook, as cartas são online, os beijos digitados e os toques são filmados.
Em tempos de correria, não esperamos o amanhã, queremos o agora e o depois.

Em tempos passados, prefiríamos o olho no olho, mão no ombro e sorriso discreto.
Em tempos que não vivi, o muito valia pouco e o pouco valia muito.
Em tempos estranhos, eu te desconhecia enquanto você me olhava.

Em tempos de ‘eu’, preciso do tempo que somos ‘nós’.
Em tempos de estar perto, quero cada vez mais perto.
Em tempos de versos curtos, seja curto

 

 

O caminho de Damasco

“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu” Livro de Atos dos Apóstolos, cap. 9 vs. 3

Como diria Miró da Muribeca “Janela de ônibus é danado para botar a gente para pensar”, perceber o verde das árvores se tornando mancha verde pela velocidade, o balanço do carro, o vento pela janela ou o frio do ar condicionado. Na solidão do meu eu, ali em silêncio, pensando na minha vida e na vida dos outros, revendo os meus conceitos, diferenciando mentalmente solitude e de solidão. A vida passando pelos olhos e ao mesmo tempo retumbando por dentro.

Na narrativa bíblica, o jovem Saulo, depois de ter perseguido cristãos, arrastado e levado à prisão mulheres e homens que seguiam o Senhor, segue seu caminho e se depara no meio da viagem próximo de Damasco com uma Luz. Luz que o levará a refletir os seus caminhos e o motivo de seus atos, leva Saulo a mudar tudo que ele tem feito até aquele momento.

Permitam-me a liberdade para devanear sobre o texto, sem muito compromisso. A questão que fica durante essa narrativa é: Seria o caminho de Damasco que encontrou Saulo ou Saulo que encontrou o caminho? Por mais que essa dúvida seja simples ou não apresente muita relevância inicialmente, o “quem-encontra-quem” nos leva a refletir.

Saulo seguiu para Damasco com a intenção de prender outros seguidores e o caminho vem e o surpreende. Ele esperava do caminho outra coisa, esperava o óbvio, o seu desejo, queria suas vontades. O caminho não esperava nada dele, esperava somente ele aparecer, o caminho para Damasco era um caminho para Damasco. Imagine quantas vezes Saulo teria passado por ali e nada tinha acontecido, até o momento que o caminho quis o encontrar.

Até o momento que o caminho quis nos encontrar… A vida e seus caminhos não tem esperado nada de nós e nós que colocamos tanta expectativa no futuro e nos rumos que se seguirão. E de mesma maneira, não sabemos quando os caminhos de Damasco nos escolherão para que possamos parar e refletir o que temos feito até ali, o motivo do que temos buscado e lutado. Até o caminho de Damasco nos encontrar e nos colocar diante de nós mesmos, nos apresentar um espelho que quebra por dentro e expõe as nossas verdadeiras intenções.

“O caminho muda, e muda o caminhante
É um caminho incerto, não um caminho errado
Eu, caminhante, quero o trajeto terminado
Mas, no caminho, mais importa o durante”
Estevão Queiroga
(A dica de um bom amigo, depois de ler o texto)