40 anos da vida de uma negra: “A cor púrpura”

“Querido Deus… Querida Nettie” Escrito em forma de cartas, o livro de Alice Walker traz uma narrativa bem pessoal sobre a vida de Celie, iniciando na sua adolescência percorrendo todas as intempéries da sua caminhada até a sua velhice. O livro é escrito por uma negra sobre negros nos EUA, no período entre guerras e o estopim da segunda guerra (1900 – 1940).

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Fonte: Pisovelho

Celie foi estuprada, teve seus filhos distanciados, cresceu em uma casa cheia com dificuldades, casou-se com um homem que não a amava. Celie é o retrato de muitas mulheres, que simplesmente ignoramos.

“As minina tinham um quartinho separado, eu falei, fora, ligado na casa por um curredorzinho de tábua. Ninguém nunca passava ali, só mamãe. Mas uma vez quando mamãe num tava em casa, ele veio. Falou pra mim que ele queria queu cortasse o cabelo dele. Ele pegou a tisoura e o pente e a escova e um banquinho. Enquanto eu cortava o cabelo dele ele olhava pra mim de um jeito engraçado. Ele tava um pouco nervoso também, mas eu num sabia porque, até que ele me agarrou e fez o que queria comigo entre as perna dele” p. 134

Quantas meninas passaram a vida sofrendo caladas, sendo abusadas por seus parentes. Pior, quantas ainda passam por isso? É importante perceber como a escrita da Alice Walker tenta aproximar o discurso do personagem para o leitor, a escrita deficiente, cheia de palavras escritas semelhante a oralidade para demonstrar quão fraca é a formação da Celie.

Se checarmos alguns dados rápidos, podemos observar que as cotas de ação afirmativa foram implementadas por JFK, em 1961 estendendo-se às instituições educacionais em 1972 (OLIVEN, 2007). No Brasil, segundo dados do IBGE (2010), o analfabetismo entre negros a partir dos 15 anos, é de 13,3% enquanto para brancos na mesma faixa etária, o número reduz para 5,9%.

Não vou me ater muito a história do livro, mas comentar sobre alguns aspectos importantes que o livro traz. Por exemplo desses aspectos, a relação da irmã de Celie, a Nettie, a qual vai ser missionária na África e dedica-se ao estudo da Bíblia e relata os ambientes que ela frequentou.

“Todos os etíopes da Bíblia eram pretos. Isto nunca tinha me passado pela cabeça, se bem que quando a gente lê a Bíblia isso fica perfeitamente claro se a gente prestar atenção só nas palavras. São os desenhos da Bíblia que enganam. Os desenhos que ilustram as palavras. Neles, todas as pessoas são brancas e por isso você pensa que todos os personagens da Bíblia também são brancos. Mas os verdadeiros brancos viviam num outro lugar naquela época. É por isso que a Bíblia fala que o cabelo de Jesus Cristo era que nem lã de cordeiro. Lã de cordeiro não é lisa, Celie. Não é nem anelada.” p.161

É comum ainda hoje, vermos ilustrações da bíblia com o “Jesus europeu”, uma representação distante do seu ambiente e distante do discurso.

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Fonte: Superinteressante

” Fiquei meio de moral baixa após sair da Sociedade. Em cada parede tinha a fotografia de um homem branco. Um fulano chamado Speke, um outro chamado Livingstone” p. 163

Outro aspecto importante a ser pontuado é como Celie não conhece o próprio corpo e não consegue sentir prazer na relação sexual, como ela deixa de estar ali e acredita que é algo somente do homem. Ela se refere como ele vai e faz o seu negócio (business), o que deixa mais explícito a ser algo externo a ela, algo que ela se encontra a parte.

A cor púrpura não é somente sobre Celie, mas o universo ao seu redor. É sobre mulheres negras, é sobre negros marginalizados, sobre uma sociedade caída, sobre a vida e suas desigualdades, sobre realidades que precisam ser conversadas.

WALKER, Alice. A Cor Púrpura. 1982, 10ª Edição, Editora José Olympio, Rio de Janeiro – RJ. 2016

ESTADÃO. Analfabetismo entre negros é mais do dobro que entre brancos. Publicado em 17 de setembro de 2010. Acesso em 03 de Novembro de 2017, às 21:55
<http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,analfabetismo-entre-negros-e-mais-do-dobro-que-entre-brancos,611316&gt;

OLIVEN, A. C.. Ações afirmativas, relações raciais e política de cotas nas universidades: Uma comparação entre os Estados Unidos e o Brasil os Estados Unidos e o Brasil. Educação. Porto Alegre/RS, ano XXX, n. 1 (61), p. 29-51, jan./abr. 2007

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La Nuova Gioventú

Faz um freelancer eventual; estuda para a prova do dia seguinte; faz o almoço e deixa congelado. Hoje não vai dar para sair com o namorado, tem prova amanhã. E a gente tem que fazer uma mágica com o dinheiro, tem que usar cupom de desconto, fazer aquele malabarismo, esperar a black friday, fazer feira e comprar o necessário. Não temos muita certeza do amanhã, a crise tá pesada e a universidade pública cada dia a sua vez.

Já conhecemos as músicas da greve. Vamos, meu amigo, lute! Lute contra os cortes da educação, estamos desmotivados, cansados intelectualmente. Cansados de correr contra a maré, o dia poderia ser mais lento e a água não tinha que correr para o mar. Ficamos postando várias vezes sobre como a universidade desgasta a mente dos alunos e como os professores estão percebendo a desmotivação deles.

Só que… Entre passar por isso, mesmo que por vezes se arrastando, e tentar uma forma  alternativa… O medo coíbe. O medo nos trava e seguimos o fluxo. Por dias nos perguntamos se vale mesmo a pena. Será?

As pessoas mais velhas costumam dizer que temos mais oportunidades do que ‘no tempo deles’, e isso não deixa de ser verdade. Porém, é difícil comparar a qualidade de vida, é difícil ver se realmente estamos conseguindo questionar e mudar o rumo das coisas. Será que nossas lutas tem relevância para mudança social, ou só defendemos ideais por orgulho de nossas ideologias?

Questionadores. Pensativos. Inertes. Subversivos. Liberais. Conservadores. Somos tantos e ao mesmo tempo ninguém, não conseguimos unir ideais comuns (ou, conseguimos?). Vamos construindo nossa vida sem perceber o que estamos construindo. As disputas do mercado, precisamos ser melhores e cada vez mais bem preparados, o mundo não perdoa. E nós, será que conseguimos nos perdoar?

E talvez, seja o que mais precisamos: perdoar a nós mesmos. Perdoar nossas cobranças surreais de um mundo injusto, perdoar o não cumprimento de prazos, perdoar as crises, perdoar o fato que por vezes não vamos conseguir, perdoar as escolhas e também o fato de não fazê-las. Perdoa-me.

 

Posfácio #011 – O soldador Subquático

 

Em um dia de tédio, o que mais precisamos é de uma boa leitura. Confesso que inicialmente não era meu interesse ler esse HQ do Jeff Lemire, mas passei algumas páginas… Olhei a diagramação, vi os traços fortes e significativos, vamos dar uma chance.

“A maré está alta e o vento a estalar
Mas esse velho navio nunca irá afundar
Estamos em alto-mar, a dias do chão
Mas se estiver assustado é só pegar minha mão”

Confesso que foi uma boa leitura durante a espera na universidade, é um livro rápido e intrigante. Os traços te fazem mergulhar junto com o soldador, não só em alto mar mas no passado do personagem. A relação dele com pai, a infância e os conflitos atuais.

Nem sempre estamos dispostos a voltar no passado e resolver as coisas para estarmos bem no presente, porém o soldador é instigante justamente por isso: a audácia de querer enfrentar e resolver.

É importante estar atento aos detalhes, o motivo que os objetos foram colocados naquela ordem específica, e caminhar junto com Jack diante dos desafios propostos na trama.

O soldador subaquático
Jeff Lemire
Editora Mino
2016