Carta de amor em Recife

Quando o meu olhar encontrou o teu
Seja Rua da Moeda, seja padaria
Seja cinema fechado, seja Amoretto
[o-amor-é-teu

Quando minha mão tocou a tua
Foi confiança de atravessar a rua
Foi antigo, presente e futuro que sussurra

Quando minha cabeça recostou teu ombro
Seja Derby, seja Rua da Hora
Seja Boa Vista, Seja Soledade

Quando nossos braços se acomodaram
Seja Malakof café, seja Torre Malakof
Seja sofá de sala, seja mar de nós dois

Quando meus lábios encostaram nos seus
Seja ventania de mar, seja banco de praça
Seja Boa viagem, seja noite em mim

Quando o abraço me escondeu
Seja o Arsenal de mim
Seja Marco zero que sorri

Quando a eternidade se estabeleceu
Seja Madalena, Seja Graças
Seja chuva, seja almoço

Quando somos casa do outro
Seja Forte, Seja Amarela
Seja dois, seja somente um

 

Quando o oposto nos diz quem somos

Lembro do dia que encontrei uma mulher negra, na minha graduação e ela começou a contar sobre como a realidade hostil do curso, levou-a a se perceber como negra. Passei e passo por algo semelhante.

Será que temos que encarar o que não somos para entender quem somos? Ter que entender o que não é ser mulher, para então ser uma? Saber o que é ser branco, índio, latino para saber o que é ser negro?

Irei compartilhar duas experiências pessoais, que não devem ser levadas em consideração como regra para sociedade. Mas que não deixa de ser um reflexo do que ocorre dentro dela, afinal somos atores sociais.

Primeiro Oposto: Não-mulher

A minha educação não fundamentou muito essa questão do “ser mulher”, como de costume de alguns, foram reproduzidas frases que não explicam muita coisa mas somente dogmatizam o comportamento feminino: “Você tem que sentar assim, porque é mocinha”; ” Se você sair com um monte de menino, quem fica mal falada é você”. Essas frases não justificam ser mulher, na verdade só impõe o que você tem que fazer por ser mulher. 

É importante olhar a sociedade e questionar o que é imposto, ou nos é servido de bandeja. Se podemos criticar e questionar o que nos é servido, isso pode nos causar problemas ou soluções.

Quando encontro alguns colegas-homens, percebo a ideia frágil que eles tem sobre mulher. Sobre quando eu tiro piadas semelhantes as deles, e eles se surpreendem por  eu fazer isso. Ou quando apresento minha opinião fundamentada em alguns livros e leituras paralelas.

O oposto nesse caso, seria o que eles esperam de uma mulher e o momento que naturalmente as mulheres quebram esse esperado, aquela rápida sensação de desconforto. Sim, o desconforto é ele que nos fala sobre o comodismo do lugar que estamos e nos leva a indagar.

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Obra atribuída a Dino Muradian

Segundo oposto: Branco

Um dia estava eu (negra) e mais duas mulheres (brancas) auxiliando em uma cozinha. Neste momento, chegou um homem (branco), o qual conhecia as três e começou a brincar e jogar conversa fora. De repente ele solta, “Pronto, a única que vai cozinhar vai ser ela” e apontou pra mim, acho que no momento eu fiz uma cara meio feia e ele ficou meio sem saber em que terreno estava pisando. Para quem assiste a situação talvez não tenha percebido esse nuance de cor que enfatizei nos parênteses. Poderia eu acusar ele de racismo?

Depois de um tempo vamos percebendo algumas coisas que se não prestarmos atenção a sociedade fala e não escutamos. Já escutei várias vezes que minha beleza é exótica, eu acho engraçado o uso dessa palavra “exótica”, para algo que é bem comum no Brasil: negra – cabelo cacheado – altura mediana. Da mesma forma, como quando pego ônibus para a zona sul da cidade, e não chega a ter 5 negros dentro do ônibus.

***

O oposto é o espelho invertido da nossa realidade. A máxima que Os opostos se atraem, nem sempre é válida para a sociedade, somos levados a crer que realmente se atraem, porém no íntimo… Eles se auto-conhecem.

Poeminha de domingo

I

Dominguei você
Seu risinho safo

Olhos de chinês, me disseram:
– Veja, o domingo está posto na mesa!
Ah, sim! A mesa de domingo…
Que vontade de você, domingo

Mesa cheia, mesa farta
Gente na mesa, pratos conversando
Talhares ta-ta-lha-lha-tlá-tlá
Copos, distantes da mesa
Perto da mesa, copos

II

Domingo de você
Minha saudade de futuro

Olhos redondos, me disseram:
– Silêncio, o domingo foi embora
Ah, domingo… Não se vá
Que saudade de você, domingo

Mesa vazia, mesa falta
Deixe a mesa, os pratos calados
Talheres, ó, não há
Copos, distantes da mesa
Perto da mesa, mosca

III

Domingará, você
Amanhece em mim

Olhos serenos, me disseram:
– Faça o seu domingo, hoje, mais uma vez
Ah, domingo…te chamei pra perto
Vem ser família, domingo

Vou montar mesa, mesa nova
Os pratos vão aprender a falar
Talheres tagarelas (virá)
Copos vem à mesa
Cada vez mais perto

(estamos)