A grandeza do belo

Eu acabei de tomar banho e isso é comum. Talvez, um fato um pouco pessoal, geralmente não se diz que vai tomar banho em textos públicos ou algo do tipo. Enquanto a água fria caia sobre mim, e sobre como eu estava sem barreiras ali dentro, como o meu corpo se encontrava sendo meu e minha fisiologia me afirmando ser mulher, estava plena diante do comum.

Para algumas mulheres, há todo um processo de aceitação do corpo, seja por ser demasiadamente magra ou por ser gorda (e nenhuma dessas duas palavras grifadas não deveriam ferir ninguém). Na última viagem que fiz, tive que dividir o local do banho com outras mulheres e eu simplesmente não lembrava qual tinha sido a última vez que isso tinha ocorrido.

Quando crianças, não nos importamos com nada em relação a essas coisas: somos iguais. Não temos mamas desenvolvidas, nem pernas muito grossas, não precisamos depilar aqui ou ali. Quando adultos, isso muda. Passamos a comparar nossos corpos, a nos olhar diante de padrões que não são muito acessíveis.

No momento de dividir o banho com alguém tive que olhar pra mim, ver se eu estava confortável com meu próprio corpo para deixar ele desnudo na frente de outrem. Não era o corpo da outra mulher que me coibia, mas a minha aceitação comigo mesma. Surpresa estava comigo, por tais pensamentos, mesmo gostando muito da casa que minha alma tem, percebi que ainda enxergava consertos e reformas que deveriam ser feitas (aparentemente).

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Minhas estrias que desenham e percorrem minhas coxas e glúteos, a baixa estatura, as manchas remanescentes de alergias, as mamas pequenas, os cortes de depilação que ocorrem na pressa do dia a dia, um cabelo branco perdido… Meu cabelo que “tá legal” mas tem dia que não.

Há uns minutos atrás, estava com a porta fechada do banheiro, não tinha mais ninguém. Olhei o meu corpo, olhei como a água percorria minha pele, e percebi que diferente de casas de alvenaria, esta casa já veio pronta e somente basta zelar. O corpo não precisa ser justificado diante de como o Criador o fez. Esse fato já o torna belo, simplesmente belo diante do que a vida lhe proporcionou: ser casa do próprio Criador.

Sacolé

Voltava do Banco, calor desgraçado, dizem que Recife só tem duas estações no ano: quente e chuvoso. Hoje, era a primeira estação (que dura basicamente todos os dias) e o Sol estava bem presente. Entro no condomínio, percebo que as árvores estão bem cuidadas, o calor ameniza um pouco por causa da sombra. Faço o caminho automático até a portaria do prédio, cumprimento a porteira que responde com uma amigável pergunta: Sacolé?

A primeira reação foi que em Pernambuco não se fala “sacolé”, a maioria conhece por “dudu”. A segunda é que tinha um moleque que aparentava ter uns 11 anos, ele segurava um isopor, ele preto e o isopor branco, moleque simpático, meio tímido. Perguntei quanto estava o dudu, ele respondeu que era 1 real. “Sobe comigo, vou comprar um”.

Durante o tempo no elevador, poderia ser um tempo tedioso, poderia comentar sobre o calor mas ele deveria saber muito mais do que eu que estava quente, deveria ter passado a manhã andando tentando vender dudu. Qual é teu nome? – Thiago (Eu não perguntei se escrevia com h  ou não, mas acho que todos os Thiagos que conheço, tem h). Comentei que era um nome bonito, ele abriu um sorrisão. Negro sempre tem dentes fortes e bonitos, e mesmo na criança dá pra perceber que seus dentes não são amarelados. Perguntei se ele estudava, respondeu que sim. Qual o horário? – À  tarde.

Acho que na cabeça dele, era bem estranho uma moça que provavelmente ele não tinha visto antes, se interessando por seu nome antes de pagar o dudu. O elevador parou. Ofereci água e perguntei se ele queria entrar. Estava parado na porta do apartamento, era feito se algo o impedisse de entrar. A resposta, claro, foi negativa para as duas perguntas anteriores. Comprei dois dudus de coco e ele foi embora.

Fiquei olhando suas pequenas mãos puxarem a porta do elevador e ir. Muitos podem dizer que estou alimentando o trabalho infantil. Na verdade, eu tinha mais interesse na sua história do que o que ele vendia. Não posso julgar o que levou aquele menino sair de casa de manhã pra vender dudu. Quantos irmãos ele tem, se tem mãe ou se mora com a avó, se sua avó é crente fervorosa ou se ela bebe aos domingos.

Ele disse que morava aqui perto, da varanda do meu prédio minha visão é dividida. De um lado tem uma comunidade e do outro um Golf Club. Recife tem dessas coisas, uma das capitais mais desiguais do país. Por vezes, eu passo na esquina de entrada pra favela e não lembro que ela está ali. Até o momento em que ela vem bater na minha porta. Quando ela me olha com um sorriso de menino, quando ela me diz que o negro nem sempre é livre e que o pobre ainda sou eu em não observar o mundo e como ele gira.

 

Em tempos

Em tempos do imediato, as pessoas são objetos e quando não nos servem mais, jogamos fora.
Em tempos de facebook, as cartas são online, os beijos digitados e os toques são filmados.
Em tempos de correria, não esperamos o amanhã, queremos o agora e o depois.

Em tempos passados, prefiríamos o olho no olho, mão no ombro e sorriso discreto.
Em tempos que não vivi, o muito valia pouco e o pouco valia muito.
Em tempos estranhos, eu te desconhecia enquanto você me olhava.

Em tempos de ‘eu’, preciso do tempo que somos ‘nós’.
Em tempos de estar perto, quero cada vez mais perto.
Em tempos de versos curtos, seja curto