Posfácio #010 – Chimamanda Ngozi Adichie

Sim, vou trazer os quatro livros pra “roda”. Vão ser breves comentários, mas o importante é falar sobre os livros e sobre a Chimamanda. Ela tem sido bastante conhecida por seus discursos no youtube a popularização deles em e-books. Nigeriana que vive nos EUA, seus romances se passam na Nigéria e dá um apanhado sobre a cultura local desse país.

Organizei os livros de acordo com a ordem em que foram lidos por mim.
Lembrando que todos os livros são publicados pela Companhia das letras.

SEJAMOS TODOS FEMINISTAS (2013)

Esse pequenino livro é fruto da transcrição da palestra popular da Chimamanda, que recebe o mesmo título (link no youtube). O livro se encontra disponível gratuito tanto na Amazon, quanto na Saraiva (só baixar os leitores digitais). Voltando ao livro, a autora vai conversando sobre situações que causam revoltas por mulheres, pela forma que são enxergadas e o que acontece.

Algo que chama atenção são as tantas vezes que ela fala que isso causa raiva, e que não devem ser menosprezadas pois são situações sérias. Falar sobre feminismo não é só falar sobre mulheres, mas falar sobre os homens também. Ela vai contando várias situações de amigos e que ela mesma passou que nos faz refletir sobre o mundo que temos vivido.

“Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser “benquistos”. Se, por um lado, perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro, elogiamos ou perdoamos os meninos pelas mesmas razões”

Algo que posso deixar como “dica” é o discurso equilibrado que é levado ao longo de poucas páginas e comunica muito bem o feminismo. E por isso, é ótimo para indicar para pessoas conhecerem a causa.

PARA EDUCAR CRIANÇAS FEMINISTAS (2017)

Esse tem um discurso bem pessoal, são “cartas” em resposta a uma amiga da Chimamanda, onde ela vai pontuando algumas coisas importantes para essa mulher que acabou de ser mãe.

“Pai é verbo tanto quanto mãe” Interessante, não? Por vezes, algumas pessoas conseguem transmitir uma multidão de significados em pequenas sentenças e essa é uma delas. Os pontos apresentados por Adichie não são atos extremamente revolucionários, mas são coisas do dia a dia, atos que devem ser feitos naturalmente e são possíveis de serem feitos.

“Tente não usar demais as palavras como ‘misoginia’ e ‘patriarcado’ com Chizalum. Nós, feministas, às vezes usamos muitos jargões, e o jargão às vezes pode ser abstrato demais. Não se limite a rotular alguma coisa de misógina – explique a ela por que aquilo é misógino e como poderia deixar de ser.”

E isso foi uma das observações que mais me saltaram os olhos. Vivemos dias de falas expressas que nem sempre comunicam, nos comentários raivosos do facebook várias etiquetas são colocadas e isso nem sempre comunica algo: hétero-branco-classe média-misógino-preconceituoso-homofóbico-privilegiado. É necessário pensar sobre isso.

AMERICANAH (2013)

Ifemelu é a personagem principal que cresce em Lagos nos anos 90, e por causa dos conflitos internos do país, muda-se para os EUA para cursar a faculdade. Aos poucos, o romance vai passeando por conflitos políticos da Nigéria, posteriormente dos EUA (até a eleição de Obama), conflitos familiares e individuais.

Quando estável nos EUA, Ifemelu começa um blog onde fala sobre as perspectivas de uma nigeriana nos EUA, e isso vai abrindo diversas conversas sobre n situações, quer seja sobre a mulher, sobre ser negra, sobre ser estrangeira… Aliás, tenho que admitir que isso foi uma boa sacada da Adichie pra permitir esse leque de pensamentos e informações que giram em torno da personagem.

“Mas raça não é biologia; raça é sociologia. Raça não é genótipo, é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo”

E isso traz uma grande riqueza de informações ao livro, por algumas vezes, cenas são construídas de forma a imergir o leitor dentro do ambiente, e quando por pressa perguntamos se haveria tal necessidade de tamanha descrição. Porém, aquilo que o livro quer mostrar é a realidade daquele cenário, detalhando o ar seco das ruas, os cantores mais populares ou as pessoas presentes em uma sala de estar.

HIBISCO ROXO (2003)

O meu queridinho e o mais recente de minhas leituras.

Kambili é a personagem da vez, menina de 15 anos que cresce em uma família com um pai extremamente religioso, e dentro desse contexto vai levando ao questionamento sobre a catequização da Nigéria, como a cultura deles se transforma em algo totalmente pagão ao olhar dos religiosos. Como exemplo disso, o fato das missas serem realizadas em inglês.

“O que a Igreja está dizendo é que só um nome inglês torna válida a nossa crisma. O nome ‘Chiamaka’ diz que Deus é belo. ‘Chima” diz que Deus sabe mais, ‘Chiebuka’ diz que Deus é o melhor. Por acaso eles não glorificam Deus da mesma forma que ‘Paul’, ‘Peter’ e ‘Simon’.”

E o foco desse livro seria justamente as relações de religiosos extremistas e outros que conseguem ter uma visão mais equilibrada e com melhor leitura de sua cultura. Como também e não menos importante, a violência doméstica. Cenas muito tristes e pesadas são tratadas na trama, cenas de silêncio diante das ações e conformidade com total atrocidade.

O livro tem um final que chama bastante atenção, como as situações e simbolismos foram bem amarrados para finalizar o enredo e como cada elemento foi bem colocado.

(Falarei sobre outros aspectos desse livro no medium)

[SOBRE OS DOIS ÚLTIMOS LIVROS]
Tanto em Hibisco Roxo como em Americanah, alguns elementos da cultura nigeriana são retratado profundamente. Os artistas como Feia, Osadebe, Onyeka Onwenu e Fela Kuti, os quais nunca tinha ouvido falar antes de ler sobre eles. Em rápida googleada sobre, pouca informação é mostrada, alguns ainda são disponíveis em plataformas como Spotify e YouTube, com músicas que duram de 12 – 20 minutos em média. E não há tradução disponível sobre as letras cantadas.

Por momentos nas narrativas, várias palavras e frases em igbo são trazidas no texto e as traduções ausentes, isso não impede de compreender o texto o sentido dele em sua integridade. Porém, seria bom saber o que realmente aquelas interjeições e expressões significam.

Isso me levou a refletir como as culturas africanas são deixadas à margem em nossa sociedade e meios de comunicação, como sabemos pouco e temos pouco acesso a esse universo. Cabe abrir espaço para essa reflexão.

 

 

Posfácio #09 – Pra onde vai o amor?

Conhecia o trabalho do Carpinejar por tudo o que ele disponibiliza no blog, instagram e o programa A máquina, da tv Cultura. O programa não está mais no ar, porém algumas entrevistas se encontram no youtube. Hoje, por vezes, me deparei com ele comentando assuntos diversos  no programa da Fátima Bernardes, o que sempre me leva a questionar o que ele está fazendo ali… Deixando essas coisas de lado, vamos falar sobre o livro.

Uma reunião de crônicas, algumas já estão liberadas na coluna do ZeroHora. Porém, como elas foram posicionadas e escolhidas, sua ordem, fala muito sobre o título do livro. Ele traça um caminho sobre o amor. Pra o Carpinejar, o amor começa devoto, ele começa em devoção não só pelo outro alguém, mas também pelo que eu posso fazer por esse outro alguém, depois ele vai se apegando se acostumando se aninhando, tomando lugar, sendo um corpo só. Então vem as fases, tem dias que tem mais manias, tem dias que se estranha. Tem raiva das manias e sente falta das mesmas durante a ausência.

O livro não quer responder o destino do amor, ele quer mostrar que o amor vive em movimento, ele anda, se modifica, muda, continua, se torna adequado e se deixa ir. O amor nem sempre quer responder a si mesmo, quanto mais nos responder sobre o seu destino.

Depois irei falar sobre outros livros do Carpinejar, ele ficou com lugar cativo nas minhas leituras.

Pra onde vai o amor?
Fabrício Carpinejar
Editora Bertrand Brasil
2015

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Fonte: Segredo Entre Amigas

Posfácio #08 – Homens em tempos sombrios

Nota: Passei um bom tempo sem publicar “posfácios”, mas as leituras não pararam. Os livros lidos já foram listados e aos poucos, vou liberando os posts.

Paguei uma disciplina de psicologia na graduação, e no meio dos muitos debates que aconteceram durante o semestre. Tive a oportunidade de comentar sobre o termo “Banalidade do mal”, termo cunhado pela autora desse livro: Hannah Arendt.  Acho que nos outros posfácios não comentei sobre o autor da forma que irei fazer agora. Arendt, mulher judia, viveu a segunda guerra e por suas influência políticas e filosóficas cunhou alguns termos e estudou o totalitarismo e a condição humana sob os aspectos de violência.

Voltando à aula de psicologia, percebi que ainda não tinha lido nada da Arendt, compartilhei isso com um amigo e ele me emprestou o “Homens em tempos sombrios”. Esse livro é a reunião de discursos de Arendt, sobre homens ( e mulheres) que viveram no século XX: Hermann Broch, João XXIII, Rosa Luxemburgo, Jaspers, Isak Dinesen, Bertold Brecht, Heidegger e Walter Benjamin. Ela se debruçou na biografia dessas pessoas, comentando de forma pessoal, invadindo seus pensamentos, expressando sua opinião, e questionando suas teorias.

O livro é lotado de sentenças que nos levam a pensar inúmeras coisas: da liberdade até a prisão que nós mesmos nos colocamos, da coragem de travar lutas pelo conhecimento até a forma de burlar regrinhas sociais para chegar onde se quer.

“Certamente, a própria humanidade do homem perde sua vitalidade na medida em que ele se abstém de pensar e deposita sua confiança em velhas ou mesmo novas verdades” p. 18

Não sei ao certo o que me fez achegar tanto a esse livro, talvez a proximidade dos dilemas por ela apresentados. O livro em alguns momentos se torna cansativo, mergulhar profundamente em teorias e teorias, o que por alguma vezes me levou a ter que parar a leitura do livro e fazer uma busca paralela sobre determinado conceito e como isso ou aquilo decorreu.

“E nós que, na maioria, não somos nem poetas nem historiadores estamos familiarizados com a natureza desse processo, a partir de nossa própria experiência de vida, pois também nós temos a necessidade de rememorar os acontecimentos significativos em nossas vidas, relatando – os a nós mesmos e aos outros. Assim estamos constantemente preparando caminho para a “poesia”, no sentido mais amplo, como potencialidade humana; estamos constantemente à espera; por assim dizer, de que ela irrompa em algum ser humano”

Homens em Tempos Sombrios
Hannah Arendt
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