A solitude de um jantar

Estava sentada em uma longa mesa do restaurante universitário daquela velha instituição pública de ensino superior. As conversas paralelas, miúdas, extravagantes. Enquanto um já estava terminando o café com leite, o outro acabara de sentar. E no final do restaurante, meu olho observava entre as brechas que os corpos das pessoas formavam nas disposições das mesas: uma mulher negra. Na verdade, outra mulher negra.

Quando anoitece, as coisas mudam na universidade. Até as pessoas que frequentam o restaurante ou carinhosamente apelidado “ru”, mudam. À noite, tem pessoas mais velhas, tem rosto de quem trabalhou durante o dia, tem mais camisas de atividades em igrejas cristãs evangélicas, tem mais silêncio, tem até mais vagas.

Voltando para aquela senhora que eu observava no início do meu jantar, desde que sentei na mesa ela olhava para o vazio e limpava a boca com um guardanapo. Se eu observasse com mais atenção, perceberia que ela estava segurando o guardanapo como se estivesse esquecido que ele estava ali, como se ele fosse uma forma de conter as palavras que estavam querendo fugir dos seus lábios.

Então, ela levantou, reparei sua roupa, roupa de quem é simples, de quem não coloca os ombros a frente da cabeça, de quem pensa antes de falar. Os cabelos crespos, grisalhos, presos, tristes, amarrados. Cabelo crespo precisa ser solto para ser feliz, porém tanto as roupas quanto as amarras no cabelo me diziam que ela cresceu em redomas. Me diziam baixinho, quase sussurrando, bem devagar… Engatinhando como se estivesse com vergonha de aparecer. Perdi de vista, não a enxerguei mais…

Voltei ao meu prato, meu café com leite, meu silêncio. Estaria alguém em sua solitude também a me observar, como eu observava aquela senhora? Somente o silêncio da reflexão nos faz enxergar o óbvio em frente aos nossos olhos.

Quantas senhoras como ela já estiveram sentadas perto de mim, conversando sobre os cursos noturnos que a universidade oferece e como os professores são injustos? Por quantas vezes o barulho afugenta a nossa alma que busca por paz, que busca o outro, se reconhece nele e o habita…

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40 anos da vida de uma negra: “A cor púrpura”

“Querido Deus… Querida Nettie” Escrito em forma de cartas, o livro de Alice Walker traz uma narrativa bem pessoal sobre a vida de Celie, iniciando na sua adolescência percorrendo todas as intempéries da sua caminhada até a sua velhice. O livro é escrito por uma negra sobre negros nos EUA, no período entre guerras e o estopim da segunda guerra (1900 – 1940).

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Fonte: Pisovelho

Celie foi estuprada, teve seus filhos distanciados, cresceu em uma casa cheia com dificuldades, casou-se com um homem que não a amava. Celie é o retrato de muitas mulheres, que simplesmente ignoramos.

“As minina tinham um quartinho separado, eu falei, fora, ligado na casa por um curredorzinho de tábua. Ninguém nunca passava ali, só mamãe. Mas uma vez quando mamãe num tava em casa, ele veio. Falou pra mim que ele queria queu cortasse o cabelo dele. Ele pegou a tisoura e o pente e a escova e um banquinho. Enquanto eu cortava o cabelo dele ele olhava pra mim de um jeito engraçado. Ele tava um pouco nervoso também, mas eu num sabia porque, até que ele me agarrou e fez o que queria comigo entre as perna dele” p. 134

Quantas meninas passaram a vida sofrendo caladas, sendo abusadas por seus parentes. Pior, quantas ainda passam por isso? É importante perceber como a escrita da Alice Walker tenta aproximar o discurso do personagem para o leitor, a escrita deficiente, cheia de palavras escritas semelhante a oralidade para demonstrar quão fraca é a formação da Celie.

Se checarmos alguns dados rápidos, podemos observar que as cotas de ação afirmativa foram implementadas por JFK, em 1961 estendendo-se às instituições educacionais em 1972 (OLIVEN, 2007). No Brasil, segundo dados do IBGE (2010), o analfabetismo entre negros a partir dos 15 anos, é de 13,3% enquanto para brancos na mesma faixa etária, o número reduz para 5,9%.

Não vou me ater muito a história do livro, mas comentar sobre alguns aspectos importantes que o livro traz. Por exemplo desses aspectos, a relação da irmã de Celie, a Nettie, a qual vai ser missionária na África e dedica-se ao estudo da Bíblia e relata os ambientes que ela frequentou.

“Todos os etíopes da Bíblia eram pretos. Isto nunca tinha me passado pela cabeça, se bem que quando a gente lê a Bíblia isso fica perfeitamente claro se a gente prestar atenção só nas palavras. São os desenhos da Bíblia que enganam. Os desenhos que ilustram as palavras. Neles, todas as pessoas são brancas e por isso você pensa que todos os personagens da Bíblia também são brancos. Mas os verdadeiros brancos viviam num outro lugar naquela época. É por isso que a Bíblia fala que o cabelo de Jesus Cristo era que nem lã de cordeiro. Lã de cordeiro não é lisa, Celie. Não é nem anelada.” p.161

É comum ainda hoje, vermos ilustrações da bíblia com o “Jesus europeu”, uma representação distante do seu ambiente e distante do discurso.

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Fonte: Superinteressante

” Fiquei meio de moral baixa após sair da Sociedade. Em cada parede tinha a fotografia de um homem branco. Um fulano chamado Speke, um outro chamado Livingstone” p. 163

Outro aspecto importante a ser pontuado é como Celie não conhece o próprio corpo e não consegue sentir prazer na relação sexual, como ela deixa de estar ali e acredita que é algo somente do homem. Ela se refere como ele vai e faz o seu negócio (business), o que deixa mais explícito a ser algo externo a ela, algo que ela se encontra a parte.

A cor púrpura não é somente sobre Celie, mas o universo ao seu redor. É sobre mulheres negras, é sobre negros marginalizados, sobre uma sociedade caída, sobre a vida e suas desigualdades, sobre realidades que precisam ser conversadas.

WALKER, Alice. A Cor Púrpura. 1982, 10ª Edição, Editora José Olympio, Rio de Janeiro – RJ. 2016

ESTADÃO. Analfabetismo entre negros é mais do dobro que entre brancos. Publicado em 17 de setembro de 2010. Acesso em 03 de Novembro de 2017, às 21:55
<http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,analfabetismo-entre-negros-e-mais-do-dobro-que-entre-brancos,611316&gt;

OLIVEN, A. C.. Ações afirmativas, relações raciais e política de cotas nas universidades: Uma comparação entre os Estados Unidos e o Brasil os Estados Unidos e o Brasil. Educação. Porto Alegre/RS, ano XXX, n. 1 (61), p. 29-51, jan./abr. 2007

La Nuova Gioventú

Faz um freelancer eventual; estuda para a prova do dia seguinte; faz o almoço e deixa congelado. Hoje não vai dar para sair com o namorado, tem prova amanhã. E a gente tem que fazer uma mágica com o dinheiro, tem que usar cupom de desconto, fazer aquele malabarismo, esperar a black friday, fazer feira e comprar o necessário. Não temos muita certeza do amanhã, a crise tá pesada e a universidade pública cada dia a sua vez.

Já conhecemos as músicas da greve. Vamos, meu amigo, lute! Lute contra os cortes da educação, estamos desmotivados, cansados intelectualmente. Cansados de correr contra a maré, o dia poderia ser mais lento e a água não tinha que correr para o mar. Ficamos postando várias vezes sobre como a universidade desgasta a mente dos alunos e como os professores estão percebendo a desmotivação deles.

Só que… Entre passar por isso, mesmo que por vezes se arrastando, e tentar uma forma  alternativa… O medo coíbe. O medo nos trava e seguimos o fluxo. Por dias nos perguntamos se vale mesmo a pena. Será?

As pessoas mais velhas costumam dizer que temos mais oportunidades do que ‘no tempo deles’, e isso não deixa de ser verdade. Porém, é difícil comparar a qualidade de vida, é difícil ver se realmente estamos conseguindo questionar e mudar o rumo das coisas. Será que nossas lutas tem relevância para mudança social, ou só defendemos ideais por orgulho de nossas ideologias?

Questionadores. Pensativos. Inertes. Subversivos. Liberais. Conservadores. Somos tantos e ao mesmo tempo ninguém, não conseguimos unir ideais comuns (ou, conseguimos?). Vamos construindo nossa vida sem perceber o que estamos construindo. As disputas do mercado, precisamos ser melhores e cada vez mais bem preparados, o mundo não perdoa. E nós, será que conseguimos nos perdoar?

E talvez, seja o que mais precisamos: perdoar a nós mesmos. Perdoar nossas cobranças surreais de um mundo injusto, perdoar o não cumprimento de prazos, perdoar as crises, perdoar o fato que por vezes não vamos conseguir, perdoar as escolhas e também o fato de não fazê-las. Perdoa-me.