Poeminha de domingo

I

Dominguei você
Seu risinho safo

Olhos de chinês, me disseram:
– Veja, o domingo está posto na mesa!
Ah, sim! A mesa de domingo…
Que vontade de você, domingo

Mesa cheia, mesa farta
Gente na mesa, pratos conversando
Talhares ta-ta-lha-lha-tlá-tlá
Copos, distantes da mesa
Perto da mesa, copos

II

Domingo de você
Minha saudade de futuro

Olhos redondos, me disseram:
– Silêncio, o domingo foi embora
Ah, domingo… Não se vá
Que saudade de você, domingo

Mesa vazia, mesa falta
Deixe a mesa, os pratos calados
Talheres, ó, não há
Copos, distantes da mesa
Perto da mesa, mosca

III

Domingará, você
Amanhece em mim

Olhos serenos, me disseram:
– Faça o seu domingo, hoje, mais uma vez
Ah, domingo…te chamei pra perto
Vem ser família, domingo

Vou montar mesa, mesa nova
Os pratos vão aprender a falar
Talheres tagarelas (virá)
Copos vem à mesa
Cada vez mais perto

(estamos)

 

Sacolé

Voltava do Banco, calor desgraçado, dizem que Recife só tem duas estações no ano: quente e chuvoso. Hoje, era a primeira estação (que dura basicamente todos os dias) e o Sol estava bem presente. Entro no condomínio, percebo que as árvores estão bem cuidadas, o calor ameniza um pouco por causa da sombra. Faço o caminho automático até a portaria do prédio, cumprimento a porteira que responde com uma amigável pergunta: Sacolé?

A primeira reação foi que em Pernambuco não se fala “sacolé”, a maioria conhece por “dudu”. A segunda é que tinha um moleque que aparentava ter uns 11 anos, ele segurava um isopor, ele preto e o isopor branco, moleque simpático, meio tímido. Perguntei quanto estava o dudu, ele respondeu que era 1 real. “Sobe comigo, vou comprar um”.

Durante o tempo no elevador, poderia ser um tempo tedioso, poderia comentar sobre o calor mas ele deveria saber muito mais do que eu que estava quente, deveria ter passado a manhã andando tentando vender dudu. Qual é teu nome? – Thiago (Eu não perguntei se escrevia com h  ou não, mas acho que todos os Thiagos que conheço, tem h). Comentei que era um nome bonito, ele abriu um sorrisão. Negro sempre tem dentes fortes e bonitos, e mesmo na criança dá pra perceber que seus dentes não são amarelados. Perguntei se ele estudava, respondeu que sim. Qual o horário? – À  tarde.

Acho que na cabeça dele, era bem estranho uma moça que provavelmente ele não tinha visto antes, se interessando por seu nome antes de pagar o dudu. O elevador parou. Ofereci água e perguntei se ele queria entrar. Estava parado na porta do apartamento, era feito se algo o impedisse de entrar. A resposta, claro, foi negativa para as duas perguntas anteriores. Comprei dois dudus de coco e ele foi embora.

Fiquei olhando suas pequenas mãos puxarem a porta do elevador e ir. Muitos podem dizer que estou alimentando o trabalho infantil. Na verdade, eu tinha mais interesse na sua história do que o que ele vendia. Não posso julgar o que levou aquele menino sair de casa de manhã pra vender dudu. Quantos irmãos ele tem, se tem mãe ou se mora com a avó, se sua avó é crente fervorosa ou se ela bebe aos domingos.

Ele disse que morava aqui perto, da varanda do meu prédio minha visão é dividida. De um lado tem uma comunidade e do outro um Golf Club. Recife tem dessas coisas, uma das capitais mais desiguais do país. Por vezes, eu passo na esquina de entrada pra favela e não lembro que ela está ali. Até o momento em que ela vem bater na minha porta. Quando ela me olha com um sorriso de menino, quando ela me diz que o negro nem sempre é livre e que o pobre ainda sou eu em não observar o mundo e como ele gira.

 

O ‘eu’ na boca do desconhecido

Estava tomando café depois do almoço, e olhando o relógio para voltar ao trabalho, meu crachá estava caindo perto da xícara. Toda vez que eu baixava o café, batia o crachá, olhava isso e enxergava uma música de sexta. Na verdade, era quinta-feira e não aguentava mais a semana. Primeira semana de fevereiro, no mês passado só fiz pagar contas. Pensei também sobre o carnaval, não tinha pra onde ir. Porém isso me preocuparia mais quando tinha 16 anos, hoje tanto faz. Se ficar em casa, descanso.

Foi quando parei de olhar a xícara e levantei minha cabeça, o restaurante que estava, funciona em um terraço, coisa de família, atravessei os olhos por entre umas grades de ferro pintadas de branco. Elas faziam com que a rua estivesse em uma prisão, ou estava preso diante da rua?

De vez em quando, ficava observando as pessoas que passavam por ali. Tinha uma parada de ônibus em frente. Desce, sobe, desce, sobe. Gente diferente, gente cansada, até que a vi…Calça jeans folgada, blusa vermelha que marca a cintura, cabelos recentemente presos. O que me chamou atenção mesmo foi o seu rosto, ela era morena, porém o rosto estava vermelho, marcado. Faltava pouco para completar 15h, e ela estava chorando. As pessoas que estavam na parada começaram a encarar. O que leva alguém a quebrar as regras não escritas da sociedade e demonstrar fraqueza em via pública?

Ela saia da universidade e chorava silenciosamente. Digo isso pelo tempo que prestei atenção no seu choro, não eram os carros que me impediam de ouvir, era o silêncio mesmo. O seu ônibus parou, ela subiu e enquanto atravessava as janelas, as pessoas iam observando, virando os seus rostos e acompanhando o balanço do cabelo que estava tão contido quanto a sua dor.

Ninguém se moveu, estamos tão espectadores da dor que a admiramos em sua angustiante formosura. Foi embora. Levantei, paguei meu café e voltei ao trabalho.

Passei o resto da tarde em frente a uma tela, os olhos não tem tanta resistência pra aguentar a luz da tela. Reduzir o brilho. Terminei o expediente e retornei pra casa, a mesma parada de ônibus que assistiu o choro, agora assistia o meu cansaço.

Em casa, minha irmã também estava. Ultimamente é difícil nos encontrar, muito menos jantar juntos. Mesmo que cada um estivesse em um sofá, perguntando qual série estou acompanhando e se finalmente terminou aquela última temporada. Comecei meu relato do dia, sem muita pretensão, falei daquele meu colega de bancada que não faz nada e fofocava e vigiava a vida privada de todos. Desci minha cabeça no sofá, coloquei o prato no chão e continuava meu café. “Hoje, tinha uma menina chorando na parada”. Por um instante, minha irmã me perguntou se era uma criança, afinal crianças choram normalmente, mas não era uma criança era uma mulher. Então, por que a chamei de menina?

Terminei de contar e terminei o café, houve um silêncio e ela me perguntou o que eu tinha feito, respondi que só observei. Ela se levantou, pegou meu prato e pediu a caneca e disse que não adiantava nem ter reparado se eu não tinha feito nada com o que observei durante aquele tempo. Eu só tinha assistido um sofrimento.