Blusa Branca

Rosa Luxemburgo foi muito feliz em escrever a famosa frase: “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”. Depois de algumas leituras e alguns diálogos, como mulher, vamos redescobrindo o nosso corpo. Enxergando cada parte, vendo os desenhos da pele, traçando seus mapas quase geográficos. Como a pele cobre a alma de forma singela , como não devíamos ter receios de enxergar o corpo e ver o ser, ver seu íntimo e somente reconhecer nele e o habitar.

Nem sempre nossos olhos são bons, nem sempre o corpo é visto da forma como deveria ser enxergado. Nem sempre o desejo cala para ouvir a admiração e a solitude da observação. E as linhas entre a liberdade e o socialmente aceito amarram e prendem o corpo, e quando queremos soltar essas cordas que deixam o íntimo restrito e esse movimento entre as cordas, o atrito que vai rasgando nossa epiderme quando tentamos mostrar ela sem restrições. Quando a forma fica mais evidente, quando os desenhos ficam impressos nas roupas, quando nosso seio decide florir em uma blusa.

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fonte: Pinterest

Por que os olhos dos homens e mulheres percorrem o meu busto quando não uso sutiã? O que causa tanta atenção, quando é somente o corpo estampado em uma camisa. Quando o branco deixa alto relevo do corpo, deixa os pontos evidentes, deixa somente por estar. Seria a sociedade caída por demais para olhar as estampas naturais e não pecar? Seria eu libertina por deixar meu corpo mostrar o que ele é somente por ser corpo, somente por ser seio, ser por tão somente ser.

O corpo é casa de mim, casa dAquele que creio, casa das tantas misturas que formam quem eu sou. O que nos leva a julgarmos os nossos corpos por suas formas, seus exageros, ou quiçá suas ausências, seus silêncios?

O corpo quando visto no espelho de outro corpo é reflexo do íntimo, reflexo do que pode ser liberto. As regras não ditas da vida vão dizendo baixinho nos nossos ouvidos como devemos andar, como devemos nos vestir, como devemos somente cumprir e não pensar sobre os motivos que nos levam a reproduzir as ações que outros fazem. A subversão de não reproduzir o esperado… É uma flor que desabrochou de outra cor. Deixemos a natureza ser por ela mesma, natural. Não nos envergonhemos nos nossos corpos, de como são belos por serem nossos, por dar forma à nossa personalidade, por ser a representação física do que é belo: a nossa alma.

 

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“Mulher Sem Nome”: Mulheres no ambiente eclesiástico

Quando me propus a ler “Mulher Sem Nome – Dilemas e Alternativas da esposa de Pastor” estava me propondo a ler algo diferente das minhas leituras comuns, confesso que olho com muito cuidado sobre os livros escritos para mulheres e principalmente quando para mulheres cristãs.

Por vezes no ambiente cristão é cobrado das mulheres uma certa excelência, virtuosidade em níveis que nem sempre são possíveis e nem sempre pautados biblicamente. Quando me deparo com o texto contido no livro de Provérbios, capítulo 31, verso 10: “Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis.” reflito sobre essa mulher que é descrita no restante do capítulo, sobre como inserir esse “ser mulher” de maneira bíblica e dialogar com uma realidade diversa, questionadora, pregadora de sua liberdade e etc…

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Garanhuns, 2015

 

Ontem,  o livro 

Lançado em 1995 escrito por Nancy Gonçalves Dusilek, esposa de um pastor da igreja Batista. Confesso que esse livro me chamou a atenção em alguns aspectos pertinentes, principalmente observando que este livro foi escrito por volta de 20 anos atrás, e o mundo mudou muito diante disso. A forma como nos comunicamos, a forma como a mulher se posiciona, por exemplo. Hoje, a fala da mulher se encontra mais incisiva, com mais espaço para a defesa, a pluralização da informação sobre os feminismos, os avanços na área de trabalho a luta sobre direitos e escolhas que dizem respeito à mulher.

Tendo os pressupostos supracitados como o olhar de mundo para a leitura deste livro, queria chamar a atenção de vocês para o título “Mulher Sem Nome”, no meio eclesiástico geralmente é chamado atenção para as esposas de pastores e sobre as suas atitudes e como elas são observadas por estarem tão próximas do líder espiritual. Porém, a Nancy traz um aspecto nem tão belo sobre isso, o fato que a identidade dessa mulher fica escondida a ponto de perder seu nome, e se tornar a “a esposa de …” e não o seu próprio nome.

” Existe um adágio popular muito usado hoje, que diz: “Atrás de um grande homem existe uma grande mulher”. Não gosto desse “atrás”; prefiro “ao lado de”. “Atrás” dá ideia de sombra, e eu não sou sombra de ninguém. A sombra pode dar ideia de algo escorregadio, que nunca alcança nada, e esse não é o papel da esposa. Dá também a ideia de medo, fato também que, a meu ver, não tem a ver com a nossa função – assustar o marido e aos demais. Dá ainda a ideia de manipular, o que decididamente, não é a função de esposa de nenhuma muito menos a de pastor.

” Ao lado de” da ideia de parceria, a ideia de que faço parte do conjunto, mas tenho o meu espaço individual, que espero seja respeitado, assim como respeito o do meu marido.” Página 22

Ainda não sou casada, ainda não sou esposa de pastor. Mas, a vida às vezes me prega umas peças reflexivas e me vem novamente a mulher do livro de Provérbios. A vida em Cristo nos leva a deixar nossas cobranças diante dos homens e descansar diante do que Deus exige de nós, a caminhada com Ele é mais fácil. Só que temos que lidar com a vida nos aspectos sociais também, e nos ambientes eclesiásticos vão cobrar a excelência e um caráter ‘não-falho’.

” Não conheço outra pessoa na igreja que receba mais cobranças do que a esposa de pastor. O pastor pode ter defeitos (e os tem, com certeza), mas o povo compreende, releva, entende, ajuda. Mas a esposa dele… Ela é uma pessoa observada o tempo todo, e as opiniões sobre ela são as mais diversas: […] 
coloque todas as cobranças na mão de Deus. Deixe que ele mesmo tome conta de todas elas, e continue servindo-o com integridade e alegria de coração.” Páginas 39,42

O que me leva a refletir sobre como essas cobranças ocorrem por outras mulheres, e como não somos piedosas umas com as outras, como as nossas relações são falhas.

Hoje, os dilemas

De uns tempos para cá, há uma maior ênfase em algumas igrejas sobre ‘feminilidade’ (e talvez até por isso, também estou aqui expressando pensamentos). Devemos ter alegria em ser mulher e não pesar sobre nossos ombros a responsabilidade de ser impecável, infalível de atos. Deus não nos deixou a responsabilidade de sermos “sombras de alguém” e vivermos escondidas, nas espreitas, sem poder falar abertamente e com a tarefa de resolver a vida de todos, esquecendo de nós mesmas. Ele não nos fez como resto, ou metade de alguém. Ele nos fez inteiras, completas, virtuosas como aquela inicialmente citada e isso não nos faz menor do que ninguém.

Nem sempre vamos nos encaixar nos padrões requeridos, nem sempre seremos a mulher que a igreja quer, que a sua empresa precisa, que sua faculdade espera, seus pais e familiares… Vamos falhar, não por ser mulher mas por ser humana. E essas coisas são boas, lembrar que podemos errar e que não devemos cobrar tanto das pessoas, sejam estas “esposas de pastor” ou aquelas senhorinhas do banco da igreja que ninguém vê.

Nossos dilemas, são nossos diálogos, são as propostas de diminuir as cargas, são os reconhecimentos além das falhas, são as permissões de sermos tratadas como iguais, de sermos chamadas pelo nome, de sermos conhecidas por nossa identidade, por termos prazer em ser mulher, em ser filha, em ser gente (também).

Mulher Sem Nome
Nancy Gonçalves Dusilek
Editora Vida
1995

 

 

 

40 anos da vida de uma negra: “A cor púrpura”

“Querido Deus… Querida Nettie” Escrito em forma de cartas, o livro de Alice Walker traz uma narrativa bem pessoal sobre a vida de Celie, iniciando na sua adolescência percorrendo todas as intempéries da sua caminhada até a sua velhice. O livro é escrito por uma negra sobre negros nos EUA, no período entre guerras e o estopim da segunda guerra (1900 – 1940).

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Fonte: Pisovelho

Celie foi estuprada, teve seus filhos distanciados, cresceu em uma casa cheia com dificuldades, casou-se com um homem que não a amava. Celie é o retrato de muitas mulheres, que simplesmente ignoramos.

“As minina tinham um quartinho separado, eu falei, fora, ligado na casa por um curredorzinho de tábua. Ninguém nunca passava ali, só mamãe. Mas uma vez quando mamãe num tava em casa, ele veio. Falou pra mim que ele queria queu cortasse o cabelo dele. Ele pegou a tisoura e o pente e a escova e um banquinho. Enquanto eu cortava o cabelo dele ele olhava pra mim de um jeito engraçado. Ele tava um pouco nervoso também, mas eu num sabia porque, até que ele me agarrou e fez o que queria comigo entre as perna dele” p. 134

Quantas meninas passaram a vida sofrendo caladas, sendo abusadas por seus parentes. Pior, quantas ainda passam por isso? É importante perceber como a escrita da Alice Walker tenta aproximar o discurso do personagem para o leitor, a escrita deficiente, cheia de palavras escritas semelhante a oralidade para demonstrar quão fraca é a formação da Celie.

Se checarmos alguns dados rápidos, podemos observar que as cotas de ação afirmativa foram implementadas por JFK, em 1961 estendendo-se às instituições educacionais em 1972 (OLIVEN, 2007). No Brasil, segundo dados do IBGE (2010), o analfabetismo entre negros a partir dos 15 anos, é de 13,3% enquanto para brancos na mesma faixa etária, o número reduz para 5,9%.

Não vou me ater muito a história do livro, mas comentar sobre alguns aspectos importantes que o livro traz. Por exemplo desses aspectos, a relação da irmã de Celie, a Nettie, a qual vai ser missionária na África e dedica-se ao estudo da Bíblia e relata os ambientes que ela frequentou.

“Todos os etíopes da Bíblia eram pretos. Isto nunca tinha me passado pela cabeça, se bem que quando a gente lê a Bíblia isso fica perfeitamente claro se a gente prestar atenção só nas palavras. São os desenhos da Bíblia que enganam. Os desenhos que ilustram as palavras. Neles, todas as pessoas são brancas e por isso você pensa que todos os personagens da Bíblia também são brancos. Mas os verdadeiros brancos viviam num outro lugar naquela época. É por isso que a Bíblia fala que o cabelo de Jesus Cristo era que nem lã de cordeiro. Lã de cordeiro não é lisa, Celie. Não é nem anelada.” p.161

É comum ainda hoje, vermos ilustrações da bíblia com o “Jesus europeu”, uma representação distante do seu ambiente e distante do discurso.

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Fonte: Superinteressante

” Fiquei meio de moral baixa após sair da Sociedade. Em cada parede tinha a fotografia de um homem branco. Um fulano chamado Speke, um outro chamado Livingstone” p. 163

Outro aspecto importante a ser pontuado é como Celie não conhece o próprio corpo e não consegue sentir prazer na relação sexual, como ela deixa de estar ali e acredita que é algo somente do homem. Ela se refere como ele vai e faz o seu negócio (business), o que deixa mais explícito a ser algo externo a ela, algo que ela se encontra a parte.

A cor púrpura não é somente sobre Celie, mas o universo ao seu redor. É sobre mulheres negras, é sobre negros marginalizados, sobre uma sociedade caída, sobre a vida e suas desigualdades, sobre realidades que precisam ser conversadas.

WALKER, Alice. A Cor Púrpura. 1982, 10ª Edição, Editora José Olympio, Rio de Janeiro – RJ. 2016

ESTADÃO. Analfabetismo entre negros é mais do dobro que entre brancos. Publicado em 17 de setembro de 2010. Acesso em 03 de Novembro de 2017, às 21:55
<http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,analfabetismo-entre-negros-e-mais-do-dobro-que-entre-brancos,611316&gt;

OLIVEN, A. C.. Ações afirmativas, relações raciais e política de cotas nas universidades: Uma comparação entre os Estados Unidos e o Brasil os Estados Unidos e o Brasil. Educação. Porto Alegre/RS, ano XXX, n. 1 (61), p. 29-51, jan./abr. 2007