Gilberto Freyre e a mulher negra: Um diálogo

Nota: Em minha casa tenho um exemplar do clássico Casa-Grande & Senzala, livro grande e denso, fruto do trabalho do Freyre. Após algumas observações feitas no podcast sobre literaturas africanas, lembrei que o sobrenome da minha família é citado no livro e novamente peguei-o para uma olhada mais direcionada. 


A conversa de Freyre se apresenta, de forma análoga, quando ele senta e observa as relações sociais. Ele traça a via de mão dupla entre indivíduos. A mulher branca é colocada diante da mulher negra, ele observa as diferenças entre elas, como elas eram enxergadas, o que a sociedade dizia sobre elas, os meios que as envolviam, suas atitudes e suas construções.

Casa Grande & Senzala é uma aclamada obra que teve e tem sua importância. Porém, os aspectos de descrição romanceados, as explicações que palpitam a boca, tornam a obra um relato com um filtro, como muitas obras fazem até hoje. Tentando dar beleza ao sofrimento e realidade difícil, suavizar as misérias da vida humana.

Nesse sentido, o trabalho de conceituação empreendido por Freyre em CG&S seria o dado inequívoco que o manteria entre o “real” e o “abstrato”, entre a experiência e o discurso, ou, para se falar em termos da empobrecedora dicotomia, entre ciência e literatura.  (NICOLAZZI, Fernando; 2011)

É importante perceber que ele separa as características que a mulher negra é envolvida atribuindo à escravidão. Em meus olhos de curiosa, ouso dizer que a escravidão, para ele, seria como uma roupa que veste essa mulher e imputa o que essa mulher é. (Mas… convenha comigo que é mais ‘confortável’ atribuir aspectos frutos de contínua violência à sua causa do que ao seu causador.)

Neste texto, discorrerei sobre três aspectos (dentre muitos) relacionados a mulher negra que são perceptíveis dentro desta obra.

DEMONIZAÇÃO

“Em oposição à lenda moura-encantada, mas sem alcançar nunca o mesmo prestígio, desenvolveu-se a da moura-torta. Nesta vazou-se porventura o o ciúme ou a inveja sexual da mulher loura contra a de cor. Ou repercutiu, talvez, o ódio religioso: o dos cristãos louros descidos do Norte contra os infiéis de pele escura. Ódio que resultaria mais tarde em toda a Europa na idealização do tipo louro, identificado com personagens angélicas e divinas em detrimento do moreno, identificado com os anjos maus, com os decaídos, os malvados, os traidores”  (Madison Grant, 1916 apud. FREYRE, Gilbeto; 2004)

A negra escrava foi enxergada como o o recanto da maldade e do profano, provinha dela (ou do negro escravo) a destruição dos “bons costumes”. A ausência do que para os portugueses deveria ser o aceitável, o ‘diferente’ se tornou pecado.

EROTIZAÇÃO/OBJETIFICAÇÃO

“Diz-se geralmente que a negra corrompeu a vida sexual da sociedade brasileira, iniciando precocemente no amor físico os filhos-família. Mas essa corrupção não foi pela negra que se realizou, mas pela escrava” (FREYRE, Gilberto, p. 398; 2004)

“Não há escravidão sem depravação sexual” (FREYRE, 2004), não é  a negra que espalha a luxúria e lascívia na sociedade, mas o estado de escrava que condiciona o indivíduo ao comportamento. A senzala em suas baixas e poucas instalações, o lugar que servia para o homem e para a mulher, a mistura dos sexos e a mulher que sofria castigos e penitências que só cabiam ao seu sexo e ao seu corpo, que levam ao estupro pelos homens brancos e negros.

“Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: “Branca para casar, mulata para f…, negra para trabalhar” (FREYRE, Gilberto, p.72; 2004). Ditados como esses colocam o lugar da branca e da preta. Onde até os dias de hoje, o corpo da negra é mais sexualizado do que a branca, onde a preta é sensual, as suas formas, seu cabelo, seu corpo mais voluptuoso são colocados como desejo sexual e não são apresentados como ‘padrão de beleza’. O corpo da negra se tornou um objeto de uso, no qual não tinha alma e era somente usado para o trabalho e sexo.

As divisões de cor entre os negros, que são presentes também hoje. Não existe diferença entre ser ‘negra’ e ser ‘mulata’, essa divisão é meramente social para ser alguém ‘parcialmente’ aceitável, alguém que serve pra algo nem que seja para o sexo, para isso existia a mulata. Mulata que é tão preta quanto a negra do trabalho.

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‘MÃE VULGAR’

“À figura boa da ama negra que, nos tempos patriarcais, criava o menino lhe dando de mamar, que lhe embalava a rede ou o berço, que lhe ensinava as primeiras palavras de português errado, o primeiro ‘padre-nosso’, a primeira ‘ave-maria’ a’, o primeiro ‘vôte!’ ou ‘oxente’, que lhe dava na boca o primeiro pirão com carne e molho de ferrugem” (FREYRE, Gilberto, p. 419, 2004)

Essa atuação da negra escrava é transmitida na linguagem, na comida, nos modos e em sua permanência até os dias de hoje, mais presentes nas regiões do Nordeste. Mesmo presentes, não se conhece a origem, não é atribuído à negra e ao negro essa construção, justamente por essa subtração de importância e crédito.

” As histórias portuguesas sofreram no Brasil consideráveis modificações na boca das negras velhas ou amas-de-leite. Foram as negras que se tornaram entre nós as grandes contadoras de histórias” (FREYRE, Gilberto, p. 413, 2004)

.Quando a negra velha que cuidava dos meninos brancos, a sua influência era menosprezada e diminuída, era considerado como “jeito errado”. Porém não era fácil tirar o dia-a-dia da ‘mãe preta” que vivia na cozinha, que cuidava do menino, que dava leite ao filho de outrem.

 “…era com os portugueses ilustres e polidos que devíamos aprender a falar, e não “com tia Rosa” nem “mãe Benta”, nem com nenhuma preta da cozinha ou da senzala” (FREYRE, Gilberto, p. 417, 2004)

Necessário fitar que não havia distinções entre as negras e sobre suas funções, por mais que fosse a negra que executasse de maneira vulgar a maternidade daquele menino, era a mesma que se deitava com ele pela primeira vez. E mais uma vez a insignificância dela, que era usada de qualquer forma e para o que fosse conveniente ao seu senhor.

***

A construção do passado é feito através de diversos olhares. Os posicionamentos de Freyre, por mais café com açúcar que aos nossos olhos pareçam, e como hoje são questionados com seriedade de acordo com o que a obra e as tantas outras dele, causaram. Como os termos e esteriótipos foram marcados e registrados por ele. Como seu olhar intimista por vezes, quebra a seriedade do discurso científico.

Olhar para Casa Grande & Senzala, é perceber que mesmo em meio as deficiências e faltas, uma obra originalmente publicada no ano de 1933, disseminou uma osmose de signos que o imaginário social carrega como verdade (por vezes, sem perceber).

 

 

FREYRE, Gilberto. CASA GRANDE & SENZALA. Global EDITORA, 49ª  Edição, 2004, Recife, PE.

NICOLAZZI, Fernando. AS VIRTUDES DO HEREGE: ENSAIO, MODERNISMO, E ESCRITA DA HISTÓRIA EM CASA GRANDE & SENZALA. Rev. Remates de Males, pp 255 – 282, Jan/Dez, 2011, Campinas – SP

Revisão textual: Vanessa Santos (História, UFBA) e Stephanie Gueiros (Ciências Sociais, UFPE)

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Quando o oposto nos diz quem somos

Lembro do dia que encontrei uma mulher negra, na minha graduação e ela começou a contar sobre como a realidade hostil do curso, levou-a a se perceber como negra. Passei e passo por algo semelhante.

Será que temos que encarar o que não somos para entender quem somos? Ter que entender o que não é ser mulher, para então ser uma? Saber o que é ser branco, índio, latino para saber o que é ser negro?

Irei compartilhar duas experiências pessoais, que não devem ser levadas em consideração como regra para sociedade. Mas que não deixa de ser um reflexo do que ocorre dentro dela, afinal somos atores sociais.

Primeiro Oposto: Não-mulher

A minha educação não fundamentou muito essa questão do “ser mulher”, como de costume de alguns, foram reproduzidas frases que não explicam muita coisa mas somente dogmatizam o comportamento feminino: “Você tem que sentar assim, porque é mocinha”; ” Se você sair com um monte de menino, quem fica mal falada é você”. Essas frases não justificam ser mulher, na verdade só impõe o que você tem que fazer por ser mulher. 

É importante olhar a sociedade e questionar o que é imposto, ou nos é servido de bandeja. Se podemos criticar e questionar o que nos é servido, isso pode nos causar problemas ou soluções.

Quando encontro alguns colegas-homens, percebo a ideia frágil que eles tem sobre mulher. Sobre quando eu tiro piadas semelhantes as deles, e eles se surpreendem por  eu fazer isso. Ou quando apresento minha opinião fundamentada em alguns livros e leituras paralelas.

O oposto nesse caso, seria o que eles esperam de uma mulher e o momento que naturalmente as mulheres quebram esse esperado, aquela rápida sensação de desconforto. Sim, o desconforto é ele que nos fala sobre o comodismo do lugar que estamos e nos leva a indagar.

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Obra atribuída a Dino Muradian

Segundo oposto: Branco

Um dia estava eu (negra) e mais duas mulheres (brancas) auxiliando em uma cozinha. Neste momento, chegou um homem (branco), o qual conhecia as três e começou a brincar e jogar conversa fora. De repente ele solta, “Pronto, a única que vai cozinhar vai ser ela” e apontou pra mim, acho que no momento eu fiz uma cara meio feia e ele ficou meio sem saber em que terreno estava pisando. Para quem assiste a situação talvez não tenha percebido esse nuance de cor que enfatizei nos parênteses. Poderia eu acusar ele de racismo?

Depois de um tempo vamos percebendo algumas coisas que se não prestarmos atenção a sociedade fala e não escutamos. Já escutei várias vezes que minha beleza é exótica, eu acho engraçado o uso dessa palavra “exótica”, para algo que é bem comum no Brasil: negra – cabelo cacheado – altura mediana. Da mesma forma, como quando pego ônibus para a zona sul da cidade, e não chega a ter 5 negros dentro do ônibus.

***

O oposto é o espelho invertido da nossa realidade. A máxima que Os opostos se atraem, nem sempre é válida para a sociedade, somos levados a crer que realmente se atraem, porém no íntimo… Eles se auto-conhecem.

A grandeza do belo

Eu acabei de tomar banho e isso é comum. Talvez, um fato um pouco pessoal, geralmente não se diz que vai tomar banho em textos públicos ou algo do tipo. Enquanto a água fria caia sobre mim, e sobre como eu estava sem barreiras ali dentro, como o meu corpo se encontrava sendo meu e minha fisiologia me afirmando ser mulher, estava plena diante do comum.

Para algumas mulheres, há todo um processo de aceitação do corpo, seja por ser demasiadamente magra ou por ser gorda (e nenhuma dessas duas palavras grifadas não deveriam ferir ninguém). Na última viagem que fiz, tive que dividir o local do banho com outras mulheres e eu simplesmente não lembrava qual tinha sido a última vez que isso tinha ocorrido.

Quando crianças, não nos importamos com nada em relação a essas coisas: somos iguais. Não temos mamas desenvolvidas, nem pernas muito grossas, não precisamos depilar aqui ou ali. Quando adultos, isso muda. Passamos a comparar nossos corpos, a nos olhar diante de padrões que não são muito acessíveis.

No momento de dividir o banho com alguém tive que olhar pra mim, ver se eu estava confortável com meu próprio corpo para deixar ele desnudo na frente de outrem. Não era o corpo da outra mulher que me coibia, mas a minha aceitação comigo mesma. Surpresa estava comigo, por tais pensamentos, mesmo gostando muito da casa que minha alma tem, percebi que ainda enxergava consertos e reformas que deveriam ser feitas (aparentemente).

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Minhas estrias que desenham e percorrem minhas coxas e glúteos, a baixa estatura, as manchas remanescentes de alergias, as mamas pequenas, os cortes de depilação que ocorrem na pressa do dia a dia, um cabelo branco perdido… Meu cabelo que “tá legal” mas tem dia que não.

Há uns minutos atrás, estava com a porta fechada do banheiro, não tinha mais ninguém. Olhei o meu corpo, olhei como a água percorria minha pele, e percebi que diferente de casas de alvenaria, esta casa já veio pronta e somente basta zelar. O corpo não precisa ser justificado diante de como o Criador o fez. Esse fato já o torna belo, simplesmente belo diante do que a vida lhe proporcionou: ser casa do próprio Criador.