Sacolé

Voltava do Banco, calor desgraçado, dizem que Recife só tem duas estações no ano: quente e chuvoso. Hoje, era a primeira estação (que dura basicamente todos os dias) e o Sol estava bem presente. Entro no condomínio, percebo que as árvores estão bem cuidadas, o calor ameniza um pouco por causa da sombra. Faço o caminho automático até a portaria do prédio, cumprimento a porteira que responde com uma amigável pergunta: Sacolé?

A primeira reação foi que em Pernambuco não se fala “sacolé”, a maioria conhece por “dudu”. A segunda é que tinha um moleque que aparentava ter uns 11 anos, ele segurava um isopor, ele preto e o isopor branco, moleque simpático, meio tímido. Perguntei quanto estava o dudu, ele respondeu que era 1 real. “Sobe comigo, vou comprar um”.

Durante o tempo no elevador, poderia ser um tempo tedioso, poderia comentar sobre o calor mas ele deveria saber muito mais do que eu que estava quente, deveria ter passado a manhã andando tentando vender dudu. Qual é teu nome? – Thiago (Eu não perguntei se escrevia com h  ou não, mas acho que todos os Thiagos que conheço, tem h). Comentei que era um nome bonito, ele abriu um sorrisão. Negro sempre tem dentes fortes e bonitos, e mesmo na criança dá pra perceber que seus dentes não são amarelados. Perguntei se ele estudava, respondeu que sim. Qual o horário? – À  tarde.

Acho que na cabeça dele, era bem estranho uma moça que provavelmente ele não tinha visto antes, se interessando por seu nome antes de pagar o dudu. O elevador parou. Ofereci água e perguntei se ele queria entrar. Estava parado na porta do apartamento, era feito se algo o impedisse de entrar. A resposta, claro, foi negativa para as duas perguntas anteriores. Comprei dois dudus de coco e ele foi embora.

Fiquei olhando suas pequenas mãos puxarem a porta do elevador e ir. Muitos podem dizer que estou alimentando o trabalho infantil. Na verdade, eu tinha mais interesse na sua história do que o que ele vendia. Não posso julgar o que levou aquele menino sair de casa de manhã pra vender dudu. Quantos irmãos ele tem, se tem mãe ou se mora com a avó, se sua avó é crente fervorosa ou se ela bebe aos domingos.

Ele disse que morava aqui perto, da varanda do meu prédio minha visão é dividida. De um lado tem uma comunidade e do outro um Golf Club. Recife tem dessas coisas, uma das capitais mais desiguais do país. Por vezes, eu passo na esquina de entrada pra favela e não lembro que ela está ali. Até o momento em que ela vem bater na minha porta. Quando ela me olha com um sorriso de menino, quando ela me diz que o negro nem sempre é livre e que o pobre ainda sou eu em não observar o mundo e como ele gira.

 

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