Conversa com o espelho

Não lembro qual foi a primeira vez que chamaram-me de ‘mulher’, porém depois de um tempo comecei a me enxergar como uma. Deixando de ser menina pra ser mulher, muitos associam esse processo a uma autonomia sexual ou quando se torna “senhora de alguém”, e não foi assim que me enxerguei mulher. Assumir essa identidade diante da sociedade é comprar valores que você não comprou, é gerar expectativas que você não quis gerar e somente quando caímos em nós e sentamos diante do nosso espelho podemos analisar: Quem somos e o que estamos dispostas a ter e considerar. No fim das contas, não aceitamos tudo que nos oferecem.

Sou cristã, negra, tenho 20 anos e não sou rica. Todas essas etiquetas contornam minha forma de enxergar o mundo e como construiu/constrói a mulher que sou.

Como cristã, cresci em um ambiente que a grande atuação é de mulheres. Por mais que os conselhos eclesiásticos sejam formados somente por homens, quem organiza o restante – em grande maioria – são mulheres. Isso sempre deixou claro como somos atuantes dentro das igrejas e temos autonomia em diversas áreas. E como temos o valor da criação por sermos mulher e sermos feitura do Criador, e por vezes falamos sobre essas coisas mesmo sem entender direito o que seria ser mulher ou colocando homens para dizer quem somos (O inverso não ocorre comumente, mulheres não dizem aos homens o que eles são ou como devem agir).

Somos rodeadas de algumas situações, e questionei fatos que não são justificados biblicamente no meio em que vivo. Porque a mulher deve ser quem escolhe entre sua carreira profissional e a família, ou ” o papel da mulher” justificando ações que ela somente anula seus desejos para satisfazer os dele, ou o quanto é cobrado das roupas das mulheres (e meninas) para que não causem olhares maliciosos nos homens.

Como negra, precisei ser confrontada como negra para entender que sou. Perceber que eu não só me enxergo como uma, mas sou.ser é muito profundo. Não se faz pessoas negras ou mulheres, nascemos negras e mulheres é algo intrínseco do indivíduo. Passei grande parte da adolescência andando com os cabelos presos, não me ensinaram a cuidar do meu cabelo ou como seus cachos soltos não fazem maldade pra ninguém. Aos poucos fui concebendo a minha cor, meu nariz, meus olhos redondos, meus lábios mais carnudos, o quadril um pouco largo para o meu biotipo. Concebendo que   sou independente do que dizem ou dos padrões mais valorizados na mídia.

Como jovem, cresci e vivo na efervescência das redes sociais e enxurrada de informação. Isso vem proporcionando uma maior pluralidade de pensamento (ou não) e as pessoas vem se afirmando mais com seus pontos de vista ( só um eufemismo para dizer que, em partes, estamos menos tolerantes ao diferente do que temos como correto). E isso também permite que eu não esteja tão engessada e consiga dialogar, mesmo com as minhas limitações, sobre como o mundo tem mudado em seus conceitos e como temos caminhado e enxergado as necessidades do outro.

Como ‘não-rica‘, percebi que a independência feminina demora mais a alcançar mulheres mais pobres. E que é necessário lutar mais e reafirmar muito mais, enfrentar mais julgamentos e ser mais forte. Por mais que digam que a mulher tem o seu direito de escolha e o movimento feminista luta por isso, por vezes a realidade é mais cruel do que a defesa de ideais. Pois, quem está disposto a ser a voz das mulheres de favela? Convivo com comunidades e bairros menos abastados através de trabalho voluntário e atividades da própria igreja. E cansei de ver histórias que o marido não deixa, ou não pode fazer ” quem já viu uma mulher fazer isso?”, ou “homem é assim mesmo”. Descobrir-se como mulher nesses ambientes tem mais significado.

Quando sentei e olhei para o meu espelho e me vi como mulher: Enxerguei os direitos sociais que tenho, mesmo que sejam recém conquistados. O direito de escolher se quero trabalhar ou se quero cuidar dos meus filhos, mas que eu não seja menosprezada independente da minha escolha. Olhei meu corpo, minhas mãos e vi o prazer de ir e vir, vestir o que for confortável ao meu corpo e eu me sentir bem. Deixar o meu cabelo solto, conversar sobre diversos assuntos pois não existem assuntos que mulheres não podem conversar, existem assuntos.

Sair com meus amigos homens e não ser olhada de lado por ser a única mulher no meio. Andar sem batom e não deixar de ser feminina, andar mais maquiada e não deixar de ser feminista. Ser mulher somente por ser mulher. 

E todos esses pronomes possessivos foram usados, pois esse foi o meu processo, onde eu concebi ser mulher e enxerguei o que eu já era e o que vou me tornando cada dia mais, todos os dias. Outras mulheres podem ter seus espelhos em outros momentos, rodeando-se por diversas conjunturas. Somente o que não modifica  é o valor da mulher, este pertence a ela e a ninguém mais.

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