O ‘eu’ na boca do desconhecido

Estava tomando café depois do almoço, e olhando o relógio para voltar ao trabalho, meu crachá estava caindo perto da xícara. Toda vez que eu baixava o café, batia o crachá, olhava isso e enxergava uma música de sexta. Na verdade, era quinta-feira e não aguentava mais a semana. Primeira semana de fevereiro, no mês passado só fiz pagar contas. Pensei também sobre o carnaval, não tinha pra onde ir. Porém isso me preocuparia mais quando tinha 16 anos, hoje tanto faz. Se ficar em casa, descanso.

Foi quando parei de olhar a xícara e levantei minha cabeça, o restaurante que estava, funciona em um terraço, coisa de família, atravessei os olhos por entre umas grades de ferro pintadas de branco. Elas faziam com que a rua estivesse em uma prisão, ou estava preso diante da rua?

De vez em quando, ficava observando as pessoas que passavam por ali. Tinha uma parada de ônibus em frente. Desce, sobe, desce, sobe. Gente diferente, gente cansada, até que a vi…Calça jeans folgada, blusa vermelha que marca a cintura, cabelos recentemente presos. O que me chamou atenção mesmo foi o seu rosto, ela era morena, porém o rosto estava vermelho, marcado. Faltava pouco para completar 15h, e ela estava chorando. As pessoas que estavam na parada começaram a encarar. O que leva alguém a quebrar as regras não escritas da sociedade e demonstrar fraqueza em via pública?

Ela saia da universidade e chorava silenciosamente. Digo isso pelo tempo que prestei atenção no seu choro, não eram os carros que me impediam de ouvir, era o silêncio mesmo. O seu ônibus parou, ela subiu e enquanto atravessava as janelas, as pessoas iam observando, virando os seus rostos e acompanhando o balanço do cabelo que estava tão contido quanto a sua dor.

Ninguém se moveu, estamos tão espectadores da dor que a admiramos em sua angustiante formosura. Foi embora. Levantei, paguei meu café e voltei ao trabalho.

Passei o resto da tarde em frente a uma tela, os olhos não tem tanta resistência pra aguentar a luz da tela. Reduzir o brilho. Terminei o expediente e retornei pra casa, a mesma parada de ônibus que assistiu o choro, agora assistia o meu cansaço.

Em casa, minha irmã também estava. Ultimamente é difícil nos encontrar, muito menos jantar juntos. Mesmo que cada um estivesse em um sofá, perguntando qual série estou acompanhando e se finalmente terminou aquela última temporada. Comecei meu relato do dia, sem muita pretensão, falei daquele meu colega de bancada que não faz nada e fofocava e vigiava a vida privada de todos. Desci minha cabeça no sofá, coloquei o prato no chão e continuava meu café. “Hoje, tinha uma menina chorando na parada”. Por um instante, minha irmã me perguntou se era uma criança, afinal crianças choram normalmente, mas não era uma criança era uma mulher. Então, por que a chamei de menina?

Terminei de contar e terminei o café, houve um silêncio e ela me perguntou o que eu tinha feito, respondi que só observei. Ela se levantou, pegou meu prato e pediu a caneca e disse que não adiantava nem ter reparado se eu não tinha feito nada com o que observei durante aquele tempo. Eu só tinha assistido um sofrimento.

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