Negra e seu riso

Quando cinco horas da manhã, o frio deixa a água mais fria para sair de casa, o reflexo do preto café no rosto indica a labuta do dia. Os cabelos que não ajudam a prender, os lenços que envolvem os cabelos. As ancas largas que atrapalham no transporte público, os beiços que só mostram seriedade, os ombros projetados para frente dizendo que precisa correr, o trabalho não para.

Durante o dia, muito riso, muita conversa, arrastar de chinela, filho no colo, cala a boca menino. Cliente chega, vende o milho, a canjica e a pamonha. Não, hoje não tem bolo de macaxeira… Não deu tempo. O corpo já está cansado, pesado, a vida foi dura, descer ladeira pra pegar ônibus, cuidar de criança que não era sua, chorar no banheiro… Não, Maria de Jesus. Não, Rose. Não, Josilene. Não, estou cansada.

Quando fui nascer, não escolhi qual seria minha parteira muito menos a cama de dormir. 

Os olhos já estão fundos, são grandes as bolsas do cansaço, o nariz largo respira e ri…Ri, dentes fortes, dentes brancos, dentes afastados e fortes, é o riso que não sai. Transpõe vida, depois dele vem a alma de quem viveu e vive.

A sua filha carregada no colo de outra, criada em barra de saia que nada diz se não for na cozinha, a blusa da escola que ela não frequentou, da viagem que ela não fez. A sua vida já veio de outra vida. E o ciclo se repete, por mais moderno que o mundo esteja, por mais que as charretes tenham sido deixadas, por mais que … Por mais que o mundo continue a girar e as pessoas continuem a viver, e não haja importância com o humano. Não, não tem muita coisa que irá mudar.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s