Na tua infância

Olhava para você hoje, sentado no sofá, com as pernas pequeninas com um sapato maior do que os pés. Olhava os seus olhos curiosos na televisão sem entender muito sobre o que falava aqueles besteiróis de domingo, de quem iria namorar-com-quem e a plateia gritava e nenhuma expressão seu rosto demonstrava. Novamente, eu iria deixar a casa e refletia sobre tua criação. Sou a pessoa menos indicada para dizer que te educo de alguma forma, te ninei muito, mas hoje, pouco tempo temos.

Fico pensando sobre quando você estiver da minha idade, começando a alçar seus voos, espero sinceramente que o tempo seja mais favorável, que essa crise moral-política-econômica tenha passado, e sinceramente não tenho muitas esperanças para que melhore. Não escolhemos as datas que nascemos…

Hoje eu via tua teimosia, o nariz relado da intrepidez na calçada, a voz alta que repetia o teu nome “Faça!” “Guarde!” “Escute!” “Obedeça!”. A gente não tem a mínima ideia do porquê de fazer essas coisas: Por que é necessário guardar os brinquedos? Ou porque uma serra de plástico não pode ser uma arma? Sabe… Existem coisas que até sabe lá que dia, não saberemos responder, mas elas precisam ser feitas. Às vezes eu não entendo o que você fala, mas entendo seus desenhos (e eles têm melhorado com o tempo).

A curiosidade tão aguçada, aquelas coisas que você, criança, faz. O questionamento que me lembra do dualismo, afinal por que o pastor não canta Sítio do Pica-Pau Amarelo na igreja (?). Na verdade, você tem uma irmã e uma mãe que te apresenta uma liberdade muito sensível. Só que as pessoas não sabem caminhar com a sensibilidade que a liberdade pede. Ultimamente, a liberdade é agressiva até com o nosso próprio reflexo no espelho.

Enquanto fores criança não deixe de me cobrir com o lençol e dizer que sou travesseiro; de pegar o meu rosto e virar bruscamente para ver o saci passar, de ficar passando sua mãozinha no apertado para pegar o gibi ou pedir para que leia; de dizer que eu cheguei “hoje” para todos, mesmo que já faça dois dias. Eu reclamo de quase tudo isso, talvez esse seja o meu jeito de dizer que me importo com o que você faz. Reclamo sabendo que vem o teu riso na cara com aqueles dentes pequenininhos em cima de mim. Por favor, aproveite sua infância (por nós dois).

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