Chaves

O relógio disparou, e aqueles cinco minutinhos se tornaram 40 minutos que atrasaram a manhã dela. Levantou-se, amarrou os cabelos com aqueles pauzinhos de madeira hippie, aqueles que só [nós] mulheres sabem prender cabelos com eles. Ducha muito rápida, muito quente, vapor, um sorriso embaçado de pasta dentária. Antes de sair de casa é sempre a mesma situação: pega bolsa, calça o sapato andando, dá a última olhada no espelho ” tá ótimo” e segue em direção a porta… Onde eu deixei a chave?

Volta, olha, anda, retorna, levanta, abaixa, 5 minutos, anda, para, pensa. Quando mais queremos correr, mas o tempo insiste em parar. Os olhos curiosos buscam o lugar simples de algo simples, enquanto isso os cabelos batiam nos ombros, as falas sozinha, as conversas sobre perguntar a si mesma: Onde estaria essa chave?

Na sala, não estava, era provável demais… Chegara ontem e deixou a bolsa na estante, o porta chaves só tinha a chave do quintal. No quarto, era provável demais. Relógio. Estava atrasada. Respirou um momento, a mão na cintura e os pés demonstravam a impaciência, então novamente a última olhada na bolsa: aí está. Desceu as escadas correndo, destravou o carro, aquele bip que anuncia ao mundo sobre o direito de ir e vir ( ou pelo menos tentar considerando o trânsito desta cidade). Saiu, foi e pensou sobre como a chave sempre estaria ali, sobre seus olhos e sobre como as estradas e os caminhos estão diante de si e não sabe qual seguir.

Naquele dia, em que deixou passar e deixou de olhar, permitiu que ele fosse embora sem ao menos, tentar. E ele estava ali, como as chaves, no lugar improvável sendo que é o mais propício de se estar: perto. Revisou seus pensamentos tão altos. Sinal vermelho, o GPS sinalizava para a direita, mas o escritório dele seguia ‘enfrente’ [permitam-me esta liberdade com a palavra].

Estacionou o carro, baixou o espelho, retocou o batom e tocou a campainha, a porta abriu, os degraus de madeira falavam ao escritório que alguém estava com pressa. Sorriu de forma graciosa com o canto da boca, mostrando poucos dentes. Ele olhou, por cima do óculos e pediu para que entrasse:

– Perdi minha chave, você ainda tem a sua?

Ele se alongou na cadeira, olhou firme e disse que não estavam no escritório, estava em sua casa, desde que brigaram deixou as chaves na cabeceira da cama. Ela reparou na mesa e observou que no chaveiro da chave do carro, havia uma chave avulsa ‘Ana’, sorriu por ler seu nome, confirmou o blefe:

– Então, vai lá hoje a noite, leva as chaves. Estarei esperando na entrada do condomínio, ou naquele café da esquina… Vou indo, estou atrasada.

Saiu da sala, mas antes decidiu voltar:

– Onde há um wine bar por perto? Desde aquele dia, não comprei mais vinhos.

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